segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Vazio, por Sayonara Lino

Sayonara Lino (*)



Hoje estou sentindo um vazio, daqueles que batem quando insistimos em entender o sentido da vida. Bobagem refletir muito, melhor é viver sem tantos questionamentos, com um tanto de lucidez, mas não em excesso para não destoar dos demais. Este dezembro chuvoso tem sido quase a legitimação da angústia que me cerca vez ou outra, um boicote, esse lado da minha mente que parece invejar minha própria alegria. Estranho, não?

Está tudo tão nublado e alagado, as idéias escureceram um pouco e ando suspirando por um passado que não voltará. Logo eu, que não sou das mais nostálgicas...

Penso no novo ano que se avizinha, os novos desafios, será que agüentarei o rojão? Sim, eu ando guerreira nos últimos tempos, não me entregarei, continuarei com a certeza dos que seguem fortalecidos intimamente.

Hoje acordei tão pálida, ando tão magra e com os fios tão brancos em meio aos fartos cabelos negros! Vi uma ruga de expressão, dei um sorriso de canto em frente ao espelho e ensaiei uma alegria antes de sair para não transmitir aos outros a melancolia que insistia em andar de mãos dadas comigo.

Comprei pão, leite, queijo, ovos, café. Cheguei em casa, tudo estava igual, tudo normal, absurdamente irretocável.

Hoje não vi borboletas, não ouvi gargalhadas, chorei e disse que estava ótima para quem perguntou. “Quem diria que viver ia dar nisso?” É o que indagava Caio Fernando Abreu.

(*) Jornalista

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Do outro lado da porta, por Celamar Maione

Celamar Maione (*)



Nove horas da manhã de um sábado nublado. Acordei com o vizinho de cima martelando na minha cabeça. Tive vontade de enfiar uma bermuda e esmurrar a porta do cidadão. Respirei fundo, contei até dez e saí da cama conformado. Antes de escovar os dentes fui até a cozinha pra fazer um café forte. Ao passar pela sala, vi que, por baixo da porta, entrava um líquido vermelho que parecia sangue. Parecia? Não, era sangue. Ou seria algum produto de limpeza novo e o faxineiro, descuidado, deixou escorrer?

Interfonei para o porteiro e perguntei se havia algum servente fazendo faxina pelos andares. Não havia. Curioso e ao mesmo tempo intrigado, me abaixei, passei a mão e quase vomitei. Era sangue. Cacete, havia alguém morto do outro lado. Homem ou mulher? Um animal? Ou seria uma brincadeira de mau-gosto das crianças do quarto andar? Abrir a porta e verificar? Mas se eu abrisse e o defunto estivesse encostado na soleira da porta e caísse na minha sala?

Por um momento tentei acreditar que era um pesadelo e logo passaria. Coloquei o café pra fazer. Entrei no banheiro com a cabeça latejando. Tomei uma ducha, escovei os dentes e voltei pra sala. O sangue invadia meu apartamento formando uma poça. E se eu ligasse para a polícia? Seria suspeito de assassinato? O telefone tocou. Dei um pulo. Era Carla, minha namorada. Tínhamos combinado de viajar pra Búzios e eu estava atrasado meia hora. Expliquei o que acontecia. Ela me chamou de mentiroso e desligou sem despedidas.

Tomei coragem e interfonei para o porteiro. Meia hora depois a polícia batia na minha porta acompanhada do Severino. Abri com o coração aos pulos. Olhei para o chão e lá estava o corpo de um desconhecido, aparentando 40 anos, com a cabeça ensanguentada, a boca aberta e os olhos arregalados. Sem conseguir respirar, eu olhava para o defunto, para a polícia e buscava explicação no rosto do Severino. Nervoso, o porteiro gaguejava contando aos policiais que o morto era genro do morador do 502, meu vizinho do lado .

O homem entrara pela manhã no prédio. A polícia perguntou pelo morador do 502. O porteiro explicou que ele costumava passear com o cachorro pela manhã.

A notícia se espalhou pelo prédio. Em poucos minutos, o corredor do meu andar lotou de curiosos. As mal-amadas que moravam em frente vibravam com a confusão. Finalmente um assunto diferente para animar o sábado – imaginei. As crianças desciam gritando pelas escadas. E a polícia me crivando de perguntas.

Eu repetia que nunca vira o morto, mas não convencia. O policial baixinho e de bigode era o mais desconfiado. Ele achava estranho que eu não tivesse ouvido nenhum barulho de briga. Expliquei que estava com a porta do quarto fechada e o ar-condicionado ligado. Que o único barulho que eu ouvia era do vizinho de cima martelando na minha cabeça.

Meu telefone tocou. Era minha mãe preocupada. Acabara de escutar a notícia no rádio. Tranquilizei-a dizendo que eu não era nenhum assassino. Uma da tarde, Seu Soares, sogro do morto, chegou acompanhado de Adamastor, um Coker de cinco anos. O policial baixinho e de bigode entrou com Seu Soares no 502. Ficaram trancados durante duas horas. Seu Soares saiu chorando acompanhado do policial.

Ele confessou o crime. Contou à polícia que seis e meia da manhã o genro tocou a campanhia. Os dois discutiram por causa de um empréstimo que o morto fez em nome dele e não pagou. Seu Soares ameaçou contar à filha. O genro o jurou de morte e saiu batendo a porta. Voltou e meteu a mão na maçaneta. A porta estava trancada. Tocou a campanhia. Amedrontado, Seu Soares abriu a porta com uma barra de ferro na mão. Novo desentendimento. Seu Soares tacou a barra de ferro na cabeça do genro . Ele caiu na minha porta. Acreditando que o marido da filha estava apenas desmaiado, foi passear com o cachorro e depois resolveu parar num boteco para tomar uma cerveja.

Assim que o rabecão retirou o corpo, por volta de três da tarde, pedi ajuda a um faxineiro para limpar o sangue . Passei o resto da tarde explicando às minhas tias e à minha mãe o que acontecera. Desliguei o telefone com a cabeça explodindo. Tomei um analgésico e ia me enfiar debaixo do chuveiro, quando o telefone tocou novamente. Era Carla. Ouviu o crime no noticiário e queria me pedir desculpa. Detesto mulher desconfiada. Recusei secamente o convite para uma saída. Ouvi alguns desaforos e levei com o telefone na cara. Não me importei. Já estava acostumado .

Durante vinte minutos deixei a água fria escorrer pelo meu corpo tenso. Saí do banho e meu estômago roncou. Estava até aquela hora apenas com um cafezinho. Resolvi comer uma pizza perto de casa. Equanto comia a pizza e bebia um chope, uma loira jantando numa mesa um pouco distante, não parava de me olhar . Correspondi. Paguei a pizza e fui até a mesa da mulher. Quando sentei, percebi a mancada. O pomo de adão denunciava. Pedi desculpas e corri para o meu apartamento. Saí do elevador e quando olhei para o chão, lembrei do corpo ensangüentado. Tive ânsia de vômito. Entrei no apartamento, fechei a porta do quarto, liguei o ar-condicionado e já me preparava para dormir, quando lembrei de uma coisa importante: a vassoura. Jurei que, se o filho da puta do vizinho de cima me acordasse,.martelando na minha cabeça, ia ter guerra. Exausto do mundinho de merda, adormeci quinze minutos depois .

(*) Radialista e jornalista, trabalhou como produtora, repórter e redatora nas Rádios Fm O DIA, Tropical e Rádio Globo. Foi Produtora-Executiva da Rádio Tupi. Lecionou Telemarketing, atendimento ao público e comportamento do Operador , mas sua paixão é escrever, notadamente poesias e contos.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

A busca ilusória de toda a verdade

Milton Coelho da Graça (*)



O presidente Lula, com notável franqueza, admitiu, em entrevista exclusiva, concedida a Mário Sérgio Conti, da revista piauí, não ler jornais nem revistas, não usar a internet para ler notícias ou blogs nem ver noticiários na televisão.

Merval Pereira dedicou a essa entrevista o comentário de hoje, terça, 06/01, concentrando a análise no óbvio desagrado presidencial em relação ao trabalho da imprensa, considerado “tumultuado e injusto” desde o início do primeiro mandato em 2003.

E critica fortemente a dependência, para o conhecimento claro da realidade no país e no mundo, a que o presidente teria voluntariamente se submetido, em relação a um pequeno grupo de assessores, encarregados de “digerir”, “selecionar” e “comprimir” todo o noticiário que possa lhe interessar.

Merval diagnostica que esses “canais de informação do presidente estão mais para propaganda do que para notícia”. Chega mesmo a apontar essa deformação como causa de erros de avaliação dos efeitos da crise mundial sobre a nossa economia.

E é sobre este ponto que proponho uma outra discussão: será possível a um presidente da República obter hoje uma visão plural de tudo que possa influenciar suas decisões através da leitura atenta dos três ou quatro maiores jornais, pelo menos duas revistas semanais, algumas outras publicações mensais e sem perder pelo
menos os dois mais importantes noticiários da televisão?

A pergunta tem sentido duplo: 1. o presidente da República teria condições de cumprir tudo isso como “tarefas obrigatórias” ?; e 2. mesmo acompanhando com máxima atenção todas essas fontes de informação, ele teria acesso a essa “visão plural”?

Por obrigação profissional, respondo “sim” à primeira pergunta. Mas a vida me ensinou – e certamente também ao presidente Lula - que não dá para repetir o “sim” à segunda.

Não podemos esquecer que dirigentes de outros países e das maiores empresas também são obrigados a delegar a tarefa da “peneira” – quantitativa e seletiva do noticiário – para conseguir um quadro mais ou menos completo e confiável, no qual basear as decisões.

A coluna de Merval é ótima como reflexão e defesa da liberdade de imprensa, mesmo quando imprecisa ou até mentirosa. Mas louco seria o governante que apenas confiasse nela para saber todos os ângulos de visão da realidade.

Dois anúncios de jornais brasileiros buscaram há algum tempo realçar suas maiores qualidades. O Estadão publicou uma mensagem em que proclamava a “credibilidade” como seu principal atributo. A Folha lançou um outro, em que ia apresentando algumas qualidades de um chefe de Estado, ao mesmo tempo em que ia surgindo a foto de Adolf Hitler. E aí afirmava com toda a razão, que, às vezes, não é preciso dizer mentiras, mas apenas não contar TODA a verdade;

Esse é o “x” do problema, como diria Noel Rosa.

(*) Milton Coelho da Graça, 78, jornalista desde 1959. Foi editor-chefe de O Globo e outros jornais (inclusive os clandestinos Notícias Censuradas e Resistência), das revistas Realidade, IstoÉ, 4 Rodas, Placar, Intervalo e deste Comunique-se.

domingo, 23 de agosto de 2009

Atos desconexos, por Fabiana BórgiaFabiana Bórgia (*)

Eu sou o impulso
o laçoo
lapso
o colapsodos
segundos
dos instantes
do que passa
e tantas vezes
perpassaatos
des
conexos
de instintos gritando
chamando
teu nome.

Não quero estar certa.
Sou passional
e escrevo tudo errado.
Entendo tudo de amor,
mas não sei amar.
Exílio.

(Do livro “Desconexos”, Íbis Libris – Rio de Janeiro).
(*) Poetisa e advogada, fazendo especialização em Leitura e Produção Textual, autora do livro “Traços de Personalidade”

domingo, 16 de agosto de 2009

O amor permanecerá sendo o amor, por Evelyne Furtado

Evelyne Furtado (*)

A partir de 1º de janeiro de 2009, entrou em vigor o tão discutido e pouco esclarecido Acordo Ortográfico, cujo objetivo é uniformizar a grafia das palavras em todos os países de língua de portuguesa. Vou ter que me informar sobre a reforma, pois bem ou mal, eu escrevo e deverei ter cuidado para não cometer mais erros, porém a preocupação fica por aí.

Passarei a fazer meus autorretratos e a ter meus momentos antissociais. Não usarei os hífens e finalmente não me culparei por esquecer os tremas, embora os ache bonitinhos. Comerei linguiça e pronto.

Direi que lhe perdoo, sem acento circunflexo e sem muito drama. Continuarei apta a perdoar e abrirei espaço para mais perdões verdadeiros.

Ainda bem que não tocaram na palavra que mais gosto de escrever. Amor continuará a ser amor do jeitinho que é grafado hoje e mesmo que alterassem a grafia da palavra, em essência o amor permaneceria a entrar porta adentro sem pedir licença. Filólogos e gramáticos não afetam e nunca afetarão o amor que é soberano e indomável.

Com ou sem legislação não deixarei de conjugar esse verbo com a voz do coração. Amo mesmo quando o sentimento é latente e descansa.
(*) Cronista e poetisa em Natal/RN.

domingo, 2 de agosto de 2009

Blues, por Solange Sólon Borges

Solange Sólon Borges (*)



Não sei fingir que amo pouco quando em mim ama tudo.
Vergílio Ferreira


Recebo sua imagem envolta em azul.
Mergulho onde se escondem asas,
virações, horizontes que me aguardam.
O azul profundo da noite a tudo oculta
sob sua pele bárbara:
percebo o quanto ilumina,
oscilando entre o que pulsa e emociona,
entre o que nomeio divino e estilhaço,
entre o que mostra e revela:
a rosa em formação.

Original: o estranho jogo de sílabas
embaralhadas para que tudo tenha sentido
e precisão diante dos destroços.
As palavras como testemunha.

Sua foto está lá, imutável,
sem fissuras, corrosões, devastações,
pressas, ervas daninhas,
enquadrada para a eternidade,
disciplinada pela beleza.
Sol encarcerado. Rios de luz na imobilidade,
semblante desfocado de anjo.

Na contraluz não se vê
a aparição subterrânea do que há em mim:
códigos intraduzíveis da fúria
e o útero dos relâmpagos.
A vida tem urgências...
as noites queimam
incontroláveis de amor.

O que temo? O desconhecido?
A profundidade dos abismos e seus alicerces corroídos?
Onde a arquitetura da paz?
A administração do caos?
É preciso que tudo doa menos.
Tenho necessidades medievais
diante do peso total de um céu desesperado.
Minhas pequeninas coisas do coração:
sonhos pisados, o amor que esperei e nunca veio...

Será que alguém ainda consegue
me fazer algum mal depois de tudo que vivi?
A circularidade do que é humano:
o mecanismo da vida que leva
a todos para tão longe
e depois os traz para tão perto
em sua sincronicidade perfeita.
Por isso seu olhar é azul e meu silêncio, blues.

(*) Jornalista, dedica-se a diversos gêneros literários. Entre outras atividades, atua em alguns programas “O prefácio”, sobre livros e literatura. Um deles é o programa Comunique-se, levado ao ar pela TV interativa ALL TV (2003/2004). Apresentou, também, “Paisagem Feminina”, pela Rádio Gazeta AM (1999), além de crônicas diárias na Rádio Bandeirantes e na Rádio Gazeta — emissoras das quais foi redatora, repórter, locutora e editora.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Um homem vive em mim, por Ilcimar Abreu

Ilcimar Abreu (*)



Lembro de mim pequenininha ainda, meias curtas, vestido bordado, cabelo lisinho, mas já sabia quem era aquele homem que me tomaria pelas mãos – resoluto forte altivo –, simplesmente ele.

Ainda hoje insisto em ler poesias de amor, peças entremeadas de glória e desvario. Me atrai a transgressão, aquilo que expande as sensações, a faceta mais teatral – irreverência.

Passeando pelas ruas ensolaradas, certa manhã, olhei para o céu tantas vezes, tantas vezes me encantei e cheguei a pensar em desistir de amar. Mas temos tantos segredos, facetas de melodrama e de paixão, amálgamas de prata e ouro; nem mesmo conhecemos nosso destino, em que instante seremos felizes ou infelizes...

Preciso dizer neste momento que em torno de mim vive a loucura, que não tolero gestos cotidianos e observo, satisfeita, esvaindo-se de mim a exuberância alheia em direção ao nada. Desejaria esquecer tensões, apertar mãos, abraçar indistintamente a quem passasse diante de mim nas ruas, ter sentimentos infantis, ora.

Cantigas de roda invadem minha mente e, não tem jeito, aquele homem é o centro de tudo, um mistério. És minha melodia, o que me dá cadência, sincopado, alegria: não tem jeito, ele é o centro de mim, um mistério. Simplesmente ele.

(*) Produtora cultural, cursando Letras na Estácio de Sá, Niterói, RJ.