sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Ilusão do paraíso, por Pedro J. Bondaczuk

Pedro J. Bondaczuk(*)



Se o Paraíso, o bíblico “Jardim do Éden”, existiu, de fato, ou se não passa de mera alegoria de como era a Terra, antes que o homem, com sua insensatez e burrice, a estragasse e emporcalhasse, é uma discussão sem fim. Pesquisadores de todas as áreas empenham-se, há séculos, para comprovar (ou desmentir com provas) sua existência ou não, em vão.

O que impede, porém, o homem de fazer do mundo todo um paraíso a girar no espaço? Sua insensatez. Sua maldade latente. Seus instintos de fera, mal-dominados pela razão. Seu egoísmo, cupidez e falta de solidariedade. Podemos chamar de tudo, este planeta azul, avariado, poluído, semi-destruído, menos de Paraíso.

Imaginem o quanto somente de dejeto fecal é gerado, diariamente, mundo afora, por 6,7 bilhões de indivíduos! E quanto se gerou em cerca de 140 mil anos de presença do homem na Terra, ao longo de sucessivas gerações. É verdade que na natureza nada se cria e nada se perde: tudo se transforma.

Mas todos esses dejetos não se evaporaram no ar, como por encanto. Estão aí, mesmo que transformados e se acumulam, em progressão geométrica a cada dia que passa. Digamos que o Jardim do Éden exista e esteja perdido em algum recanto indevassável (o que não é nada provável nesta era da globalização em que inúmeros satélites mapeiam cada milímetro da Terra).

O escritor inglês, James Hilton imaginou, no livro “Horizonte Perdido”, publicado em 1937, “um” paraíso (não especificamente “o” Paraíso, o que é bem diferente). Coube-lhe, com seu romance, que ganhou duas versões cinematográficas – a primeira de 1937, dirigida por Frank Capra e a segunda de Charles Jarret, em 1977 – a façanha de colocar na boca do mundo não a palavra Éden, mas Shangrilá.

Seu Paraíso era, na verdade, um mosteiro que “se encontrava a uma altitude de montanha” e “as montanhas que dele se erguiam eram montanhas acima de montanhas”. A “descoberta” se deu por quatro ingleses, cujo avião, que havia partido de Peshawar, no Paquistão, caiu naquele local aparentemente inóspito e inacessível.

Milagrosamente, quase todos a bordo sobreviveram e foram levados para o mosteiro budista de Shangrilá por um “grupo de tibetanos vestindo pele de carneiro, com chapéus de pele e botas de couro de iaque”. E assim começavam umas férias forçadas para os quatro passageiros do avião.

Ali, tudo funcionava com perfeição. Assustados, porém, com um mundo tão perfeito, dois dos “eleitos” acabaram por desertar, classificando-o de prisão, de lugar “doentio e imoral”. O mosteiro de Shangrilá, na verdade, existe (não, claro, com as características descritas por Hilton). Fica sobranceiro ao Vale da Lua Azul, de “surpreendente fertilidade”, onde “culturas de diversidade invulgar se desenvolviam profusa e contiguamente, sem um centímetro de solo a amanhar”.

Mas essa versão do Éden não foi nenhuma descoberta real, mas mera ficção. Imaginem, porém, que o suposto Paraíso fosse localizado por alguma dessas engenhocas que orbitam o Planeta e viesse a ser apropriado pelo homem. Não tardaria para que, logo, se transformasse num inferno. É provável que, de imediato, alguma incorporadora imobiliária o transformasse num resort, com hotéis, restaurantes, boates e tantas outras bobagens que as pessoas consideram o suprassumo do conforto e da sofisticação.

Seria, sobretudo, magnífico ponto turístico, a render dividendos para o país que se apropriasse da área e decretasse ali sua soberania e suas leis (provavelmente os Estados Unidos). Seus frutos seriam colhidos todos, até os não-maduros, para a venda. Logo, as árvores que os produzissem estariam esgotadas, ressequidas e mortas, por causa da exploração irracional.

Ademais, o Éden, não tenham dúvidas, não seria “democrático” e livre. Só os afortunados, os detentores de gordas contas bancárias, em dólares, libras e euros (claro!), para esbanjar, teriam acesso a ele. Não tardaria para que o Paraíso tivesse, ao seu redor, inúmeras atividades marginais, ilícitas e criminosas, como tráfico de drogas, prostituição, jogatina e outras tantas coisas viciosas e ruins. E, nas cercanias, dezenas de favelas.

Melhor, portanto, que esse paraíso terrestre (se existir) continue restrito ao terreno das ilusões e fantasias humanas. Só assim os pobres terão acesso a ele: através da esperança e do sonho. Morris West escreveu, a esse propósito, no romance “O Navegante”: “O paraíso terrestre é a mais velha e maior ilusão do homem. Ainda que ele existisse, nós o arruinaríamos. Por mais que os frutos estivessem ao alcance da mão, haveríamos sempre de querer os que estivessem mais alto”. Há alguma dúvida, portanto, sobre a exatidão dessas constatações? Para mim, não há nenhuma!

(*) Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Sobre despedidas, por Evelyne Furtado

Evelyne Furtado (*)



Você já estava indo. Saía aos poucos de mim. Doía e você soprava. Despedimos-nos algumas vezes. Mas você voltava. O processo foi doloroso como quem morre aos poucos.

Nem sempre foi triste. Eu já sabia que você iria. Eu até me despedi antes, certa de que não o veria mais. Então, de repentes, você surgia.

Foram boas despedidas. Nem tenho necessidade de disfarçar. Para falar a verdade: foram ótimas despedidas. Na última o dia se fez lindo e voltei para casa cantarolando, apesar de lá dentro um anjinho me avisar que talvez fosse a última vez que eu o via.
Continuamos nos despedindo por telefone. Por e-mails. Pelo MSN. As dificuldades sobre as quais você passava me preocupavam, mas eu sempre disse que ao fim daria tudo certo.

Você me ouviu chorar. Eu ouvi-o reclamar. Você dizia e desdizia. Eu dançava conforme a sua música. E você me mimava do seu jeito. Enviei mensagens de textos horríveis para você. Perdoamos-nos inúmeras vezes.

Escrevi coisas bobas, que achava lindas, para você. Você nunca escreveu bobagens para mim, seu estilo é outro, mas sua boca murmurou bobagens deliciosas de ouvir.

A noite, antes triste, virou festa e foi aí que peguei de vez na sua mão e me deixei ir. Visitei um mundo novo e recebi-o no meu.

Todo conto de fada tem fim. E o nosso não vinha com o “felizes para sempre”. Você foi e não me disse que era de vez. Alguém o viu longe daqui e me falou. A página virou com o vento e o escuro caiu sobre mim. Perdida nem vi a lua que eu brindara na véspera.

Fiz de cada trago no cigarro um sinal para você. Então, você me apareceu. Lindo como sempre. Acenando de longe. E doce como nunca vi. Adoro doces, você sabe.

Não quero pensar nos dias que virão sem mais uma de nossas despedidas. Não sei nada sobre o futuro, nem quero saber.

O que eu quero, menino, é ser feliz e serei se você também for, perto ou longe, de mim.

Como o Soneto da Separação de Vinicius. É assim que quero que você lembre de mim. É como eu vejo você. É como sinto essa despedida. Acho que ainda o verei mais tarde, para mais uma despedida, se Deus quiser.

(*) Jornalista, poetisa e cronista em Natal/RN

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Cadeira vazia *, por Urariano Mota

Urariano Mota (*)



“Entra, meu amor, fica à vontade

E diz com sinceridade

O que desejas de mim....”


As composições de Lupicínio Rodrigues representam uma das coisas mais ternas e violentas da música popular brasileira. Como ele consegue ser terno e violento ao mesmo tempo?


Não é simples. Sobre um terreno de relações desiguais, do homem imperando sobre a mulher, de relações portanto violentas, Lupicínio constrói um mundo cheio de terna compreensão para o homem que ama. E que sofre, quando rejeitado, sem abdicar jamais de uma posição que se deseja altiva.


“... Entra, podes entrar, a casa é tua

Já te cansaste de viver na rua

E os teus sonhos chegaram ao fim


Eu sofri demais, quando partiste

Passei tantas horas triste

Nem quero lembrar esse dia


Mas de uma coisa podes ter certeza

O teu lugar aqui na minha mesa

Tua cadeira ainda está vazia ...”



Observe-se, nesta música, que o amante jogado a um canto por outros é afinal procurado pela mulher que o abandonou. Ela parece chegar de mansinho, meio envergonhada, sem ousar cruzar a porta da casa que não mais é sua.


Para entrar, ela espera e precisa do convite do soberano, do soberano que, durante o tempo de abandono assistiu de camarote às lições que a ingrata levou. Até não parece o recebimento de uma amorável cadela fugida? Coisa muito terna, mas desigual, em planos diferentes, pois a casa é dele, e ela é quem o procura.


Então ele se faz paternal, concede, diz-lhe que entre, que a casa é sua, suaviza com um “meu amor”, para lhe mostrar que não é uma estranha. Poderia ainda dizer-lhe: “sei que erraste, mas como sou um bom pai, não insistirei nos teus erros”.


“... Tu és a filha pródiga que volta

Procurando em minha porta

O que o mundo não te deu


E faz de conta que sou teu paizinho

Que tanto tempo aqui ficou sozinho

A esperar por um carinho teu


Voltaste, estás bem, estou contente

Só me encontraste muito diferente

Vou te falar de todo o coração


Não te darei carinho nem afeto

Mas pra te abrigar, podes ocupar meu teto

Pra te alimentar, podes comer meu pão”


À primeira vista há o prazer da vitória sobre quem o magoou, quase uma vingança. Por trás, no entanto, há um queixume de quem se acha ter amargado uma injusta solidão. Como é homem, não chora, nem se deixa abrir numa queixa: recebe-a de volta, soberanamente. Recebe-a como quem retoma um bem roubado, é coisa sua mesmo.


O detalhe que surge e toma corpo nesse discurso de senhor e escravo é a cadeira vazia. Ninguém a havia ocupado. Durante toda sua ausência ela se fez presente naquela cadeira. Esse detalhe trai.


E sentindo-se descoberto por esta fraqueza, eis que volta o Senhor com um novo embuste: proclama, altaneiro, que não lhe dará carinho nem afeto. Chega a ser cômico. Há ternura demais nessa vingança de cadeira vazia e jejum de afeto.



“ Quantas noites não durmo

A rolar-me na cama

A sentir tanta coisa

Que a gente não sabe explicar quando ama


O calor das cobertas

Não me aquece direito

Não há nada no mundo

Que possa afastar esse frio do meu peito...”



Evidentemente, não foi Lupicínio o inventor da dor-de-cotovelo. Mas dele pode-se dizer que pôs muita dignidade num sentimento amesquinhado em penosos bolerões.


Essa dor causada, tão mal vivida em músicas que, do sofrimento de quem ainda ama, só vêem a rabugenta lamúria, ganhou em Lupicínio uma nova luz.


Normalmente as canções do gênero, quando não prometem à infiel um passional desenlace, mostram um pobre desgraçado arrastando-se aos pés da amada, pleiteando um amor impossível.


Em Lupicínio, não. A relação amorosa já existiu, não mais existe, ponto comum da dor-de-cotovelo. Mas o que acontece? Ele narra o próprio sofrimento, retrata o estado em que se encontra, sem que esse retrato nos leve ao sentimento da piedade.


Enquanto nos outros sofredores por eles só sentimos pena, na mágoa expressa de Lupicínio sentimos uma profunda empatia, casada a uma certa admiração por seu torturante heroísmo. Ele jamais é o coitado, embora sofra.


“ ... Volta

Vem viver outra vez ao meu lado

Não consigo dormir sem teu braço

Pois meu corpo está acostumado”


Ele tem o talento da expressão mais rude, bruta, direta. Não há rodeios, falsas sutilezas, o sabor encantatório de certas palavras tidas como poéticas.


Há o verso definidor de uma situação pressentida por todos, mas não ainda conhecida, porque ainda não enunciada: “ não consigo dormir sem teu braço, pois meu corpo está acostumado”.


E há o grito de dor, que é o remédio certo para a aflição: “Volta” . Sem esta curta palavra, no ápice da canção, é de se observar que ele corria o risco de cair no banal.


Ou seja, ele não é apenas o poeta que tem um mundo de visões agitando-se dentro de si, e que faz da composição um decalque desse rebuliço. Lupicínio é um artesão que põe ordem no caos das visões que deseja ver conhecidas.


Daí a ilusão do “lugar-comum incomum”. Lupicínio sabe que todas as palavras já foram ditas, que todas elas, em si, são lugares-comuns, mas que a verdade corporificada nas palavras é absolutamente original.


“ Você sabe o que é ter um amor,

Meu senhor?

Ter loucura por uma mulher

E depois encontrar esse amor,

Meu senhor,

Nos braços de um tipo qualquer?


Você sabe o que é ter um amor,

Meu senhor,

E por ele quase morrer

E depois encontrá-lo em um braço

Que nem um pedaço do meu pode ser?


Nesta música, de 1947, ele se expõe numa situação vulgarizada até o riso, a do homem que é testemunha do ato de sua substituição por outro. Lupicínio nem dá de ombros como no moderno sentimento, nem toma ares de vítima.


Ele nos convida para um mergulho no seu problema, interrogando-nos se sabemos o que é ter um amor, se sabemos, se por isto já passamos, como é duro encontrá-lo em outros braços que não os nossos.


A situação é bem velha. Velha não é a coragem de confessar essa experiência, ou, se confessa, o evitar a queda na vala comum do ridículo.


O que faz Lupicínio? Com interrogações a nós dirigidas, rasga de imediato o nosso confortável papel de assistentes, porque o conteúdo destas interrogações é saber se já tivemos um amor. Quem não? De voz embargada reconhecemos nele o nosso forçado intérprete.


“ Eu gostei tanto

Tanto quando me contaram

Que lhe encontraram

Chorando e bebendo

Na mesa de um bar

E que quando os amigos do peito

Por mim perguntaram

Um soluço cortou sua voz

Não lhe deixou falar


Ai, mas eu gostei tanto

Tanto quando me contaram

Que tive mesmo que fazer esforço

Pra ninguém notar


O remorso

Talvez seja a causa do seu desespero

Você deve estar bem consciente do que praticou

Me fazer passar essa vergonha com um companheiro

E a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou


Mas enquanto houver força em meu peito

eu não quero mais nada

Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar ...”


E aqui retornamos ao ponto de partida. O amante desprezado regozija-se da má sorte que acompanha os passos de quem o deixou. Vingança? Ou somente desfrute perverso da paixão que fica no lugar do antigo amor?


O nome mais apropriado deveria ser castigo, imposto pelo amante não correspondido. Coisa de soberano.


Um castigo imposto mediunicamente a distância. Um castigo em termos, que não destrua o objeto amado.


“ ... Você há de rolar como as pedras que rolam na estrada

Sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar”.


Na verdade, a cadeira ainda está vazia. O orgulhosos médium aguarda-a, soberanamente. Superiormente compreensivo.


“ Entra, meu amor, fica à vontade

E diz com sinceridade

O que desejas de mim


Entra, pode entrar, a casa é tua

Já te cansaste de viver na rua

E os teus sonhos chegaram ao fim


Eu sofri demais, quando partiste

Passei tantas horas triste

Nem quero lembrar esse dia


Mas de uma coisa podes ter certeza

O teu lugar aqui na minha mesa

Tua cadeira ainda está vazia


Tu és a filha pródiga que volta

Procurando em minha porta

O que o mundo não te deu


E faz de conta que sou teu paizinho

Que tanto tempo aqui ficou sozinho

A esperar por um carinho teu


Voltaste, estás bem, estou contente

Só me encontraste muito diferente

Vou te falar de todo o coração


Não te darei carinho nem afeto

Mas pra te abrigar, podes ocupar meu teto

Pra te alimentar, podes comer meu pão”



* Para um programa de rádio.


* Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

"Felicidade Clandestina" (*), por Risomar Fasanaro

Risomar Fasanaro (*)



Quando se fala em 1968 o que vem à cabeça da maioria das pessoas é repressão, tortura, exílio, ato institucional n° 5. Enfim...só se pensa em tristeza. Mas 68 não foi só isso. Havia toda uma juventude envolvida com o que se passava no país, mas que como toda juventude queria aproveitar a vida: cantar, dançar, namorar, enfim...Viver. E isso a ditadura de nenhum país conseguiu impedir.

A Coordenadoria de Relações Internacionais da Prefeitura e o Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco realizaram uma semana de debates sobre a Greve de Osasco, o movimento estudantil, a guerra do Vietnã e a participação das mulheres em 1968.

Por isso prefiro falar do lado feliz daquela época. Não tínhamos computador, nem celular, nem IPOD, nem nada do que encanta os jovens de hoje, mas com nossos pobres mimeógrafos a álcool (quando alguém tinha), produzíamos textos que rodavam pelas escolas, pelas fábricas, pelas faculdades, sempre por debaixo dos panos e um único gravador de fita mini-cassete, que passava de mão em mão para gravar as músicas que participariam dos festivais. A gente nem conhecia o dono do gravador, mas ele chegava às nossas mãos. Isso poderá dar às gerações de hoje o grau de confiança e de solidariedade que nos unia. Mais do que isso, atesta o quanto éramos felizes.

Aquele foi um período de grande efervescência cultural. O movimento político não se dava de uma forma monocórdica, em que só se tratava de militância; ele estava profundamente envolvido com a literatura, com o cinema, com a música, com o teatro. E ao mesmo tempo que se lia os textos de Marx, de Marcuse, de Regis Debret, lia-se muito Oswald de Andrade, Guimarães Rosa, fazia-se questão de ver Terra em Transe de Glauber Rocha, de conhecer todas as canções de Chico, de Caetano, de Gil, de Sérgio Ricardo.

..

Acredito que nos seria impossível resistir às perdas que sofríamos todos os dias, dos nossos amigos, dos nossos professores; impossível resistir ao desespero dos que eram mortos, à saudade dos que partiam para o exílio, se não fôssemos ancorados pelo trabalho daqueles que produziam cultura, dos que produziam arte.

O que seria de nós se não fôssemos embalados pelo canto do Chico Buarque, pelos sons e cores da Tropicália, pela voz de Elis, pelas rodas-de-capoeira, pelas cirandas pernambucanas, pela pílula anticoncepcional, que nos liberou sexualmente, e por tudo que a cultura nos proporcionou naquele período, e que foi de certa forma nossa resposta revolucionária ao que eles nos impunham?

Eles, os que aplicaram o golpe, pensaram que estavam fazendo uma revolução. Que pena... não perceberam que na verdade, não se faz uma revolução apenas com armas, com fardas, atos e decretos. As armas, os decretos, as torturas instauraram apenas o medo, a revolta, o rancor. Revolução foi o que fizemos. Com pensamento, sentimento, criatividade, solidariedade e resistência.

Não saberia dizer (não tenho conhecimento para isso) se as revoluções, frutos da realidade que nos cerca, brotam lentamente na alma das pessoas, germinam, crescem, dão flores e frutos, ou se surgem de repente, sem razão nem perdão e nos levam a mover montanhas. Se são algo maior que nós. E isso, me desculpem os generais, aquela revolução existiu, mas não na direção que eles queriam e sim exatamente no sentido oposto.

E quero aqui reiterar: fomos felizes sim. Muito felizes! Nunca se viu peças de teatro com tamanha riqueza de texto, de montagem, de tudo. Relembrar Os Mutantes com Rita Lee vestida de noiva, a banda toda com o rosto pintado demonstra que a novidade, a vanguarda de hoje surgiu com a nossa geração.

E havia também o Pasquim o jornal que revolucionou a imprensa brasileira. Era impossível não vibrar com as entrevistas que eles publicavam. Ler o Fradim do Henfil, as tiras da Graúna era esquecer qualquer tristeza. Era impossível não gargalhar ao ler no “Última Hora” O Festival de Besteiras que Assola o País, do Stanislaw Ponte Preta. Não, 1968 não foi só tristeza, não foi só tortura, morte, exílio. Foi principalmente carnavalização. Um carnaval de resistência, pois não aceitamos passivamente o açoite dos algozes.

Depois de 68 nunca mais nem o mundo nem o país foram os mesmos. E foi graças à “divina loucura” de Zé Celso, de Glauber Rocha, de Leila Diniz, que hoje estamos aqui.

E não é possível esquecer o chazinho na casa do amigo, em um domingo chuvoso com a voz de Violeta Parra cantando Gracias a La Vida indefinidamente na vitrola. Se não fosse tudo isso, o que teria sido nossa vida durante a ditadura?!

(*) Título de um conto de Clarice Lispector.

* Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Temores, por Solange Sólon Borges

Solange Sólon Borges(*)



Há mágoas que chegam
com odores de estagnação,
recobertas com véus
póstumos e nódoas.
São ofensivas:
comandam a nau capitânia;
todos os amores e ódios
desterrados são potências.

(*) Jornalista, dedica-se a diversos gêneros literários. Entre outras atividades, atua em alguns programas “O prefácio”, sobre livros e literatura. Um deles é o programa Comunique-se, levado ao ar pela TV interativa ALL TV (2003/2004). Apresentou, também, “Paisagem Feminina”, pela Rádio Gazeta AM (1999), além de crônicas diárias na Rádio Bandeirantes e na Rádio Gazeta — emissoras das quais foi redatora, repórter, locutora e editora.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Amor bandido, por Pedro J. Bondaczuk

Pedro J. Bondaczuk(*)



O amor, para mim, sempre foi (e creio que sempre será) um insondável mistério. Por mais que eu tente racionalizar esse sentimento, sempre esbarro em exemplos, em histórias, em situações que teimam em fugir de qualquer racionalidade e até do bom-senso. Quase nunca (eu diria que nunca mesmo) existe uma lógica que nos leve a nos apaixonar por determinada pessoa, e não por outra que, aparentemente (ou verdadeiramente), lhe seja até superior em diversos predicados, como inteligência, pureza, caráter etc.

Não raro temos a oportunidade de amar alguém de imensa beleza – que nos ama e que até nos atrai fisicamente – mas que, para nós, não é a companhia que procuramos. Falta-lhe aquele “algo mais” (que sequer sabemos definir o que seja) que a torne a cara metade que tanto buscamos (e, às vezes, não encontramos nunca).

Todavia, o amor, na verdade, não é para ser explicado ou entendido, pois não tem explicação. Tem é que ser vivido! Cabe-nos a irrestrita entrega a esse misterioso chamamento, sem questionarmos a razão dessa irresistível e mútua atração. Isso, em termos, claro. Creio que em determinados casos, é melhor resistir do que depois lamentar.

Uma das coisas que não entram na minha cabeça, por mais que me esforce, é o chamado “amor bandido”. Ou seja, o fato de alguém se apaixonar por determinada pessoa que não tem nada, absolutamente nada a lhe oferecer, sequer a desejável reciprocidade e, mesmo assim, considerá-la, ou, pior, identificá-la como seu “príncipe” (ou princesa, no caso dos homens) encantado, a despeito de não ter coisíssima alguma que encante.

Tenho um exemplo desses na minha convivência cotidiana. É a doméstica Jesolina, nordestina, mulata, de uns 30 anos de idade (mas com aparência de ter muito mais), que é amante de um bandido, condenado por assalto a mão armada, reincidente desse crime, e que cumpre longa sentença de prisão em uma penitenciária daqui da região de Campinas.

Trata-se de mulher honestíssima, pela qual coloco a minha mão no fogo, sensível, batalhadora, que há anos presta serviços aqui em casa, onde sempre mereceu nossa irrestrita confiança e sincera estima. Como gostaria que Jesolina tivesse melhor sorte! Quanta gente, mundo afora, que poderia lhe dar vida de rainha, está à procura de alguém com metade dos seus predicados, e não encontra! É uma judiação o que ocorre com ela.

Pergunto-me, com grande freqüência, o que leva essa mulher batalhadora a encarar sua vida com tamanha resignação e continuar amando esse companheiro, irresponsável e irrecuperável, com o qual, certamente, jamais poderá levar uma vida em comum normal, que apenas lhe deu um filho, hoje com sete anos de idade, e nada mais?

Nos dias de visita, sem falhar nenhum, às quintas-feiras e domingos, lá está Jesolina, invariavelmente, na portaria do presídio, submetendo-se às vexatórias, porém necessárias revistas, para visitar o bandido, que sequer valoriza seu sacrifício, sua lealdade, fidelidade e dedicação e, não raro, a ameaça de morte, por questão de ciúmes.

E ai de quem falar mal do seu amado na frente dessa mulher apaixonada! Ela, que normalmente é um doce de pessoa, alegre, otimista e descontraída (apesar de todo esse problema que enfrenta), vira uma fera. Defende seu homem com unhas e dentes, com paixão e sentimento, como se fosse um nobre, um príncipe, um deus, sei lá! Definitivamente, não entendo.

Sei que nada, absolutamente nada no mundo é mais amargo e doloroso do que o drama de um amor que chega ao fim. É uma situação conflitante em que sempre alguém sai ferido. Dói demais, por exemplo, ver que os beijos, as carícias e as palavras meigas e deliciosas que nos eram destinadas tempos atrás, têm por alvo, agora, uma outra pessoa.

Não se pode nunca afirmar, é verdade, que se trate de situação sem volta. O amor perdido pode ser recuperado. Mas as marcas dessa eventual separação não desaparecem. Permanecem para sempre a envenenar o relacionamento que, dificilmente, voltará a ser o mesmo de antes. Mas será que isso é pior do que a escolha de alguém que não tem nada a nos oferecer e que, pelo contrário, arruína definitivamente a nossa vida com sua simples existência? Sei lá! O amor... ah, o amor! Que baita mistério que é...

(*) Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Tolerância zero, por Aliene Coutinho

Aliene Coutinho(*)



Todos os dias, ele acorda no mesmo horário, toma banho, faz a barba e vai ao trabalho, onde cumpre “britanicamente” as obrigações. Nunca cometeu excessos, só o de ser comedido e perfeccionista. Naquela sexta-feira, ele bem que resistiu ao convite de esticar até um barzinho. Nunca foi dessas coisas, é o tipo casa-trabalho, mas era aniversário de uma colega muito especial, a única na repartição que não tirava sarro da cara dele, que dividia a mesa no almoço, e que lhe sorria com cumplicidade ao longo do dia, quando algum engraçadinho resolvia encher seu saco o criticando por deixar tudo tão arrumadinho, ou pela roupa impecável, onde até os jeans tinham vinco.

Ele não podia perder a oportunidade de ficar ao lado dela por mais algumas horas. Quase conseguiu sentar-se ao lado dela, mas no empurra-empurra, acabou ficando na outra ponta da mesa do boteco barulhento. Não ia dar nem para puxar conversa. Pediu uma limonada suíça, enquanto o resto da turma, inclusive a aniversariante, começou a se encher de choppe. E vieram os brindes, e um pedido dela: “Oh, João, só hoje e por mim, bebe uma cervejinha com a gente”. Quem resiste a isso? E João atendeu. Foram um, dois, três, quatro choppes. E ele que nunca havia bebido, mudou por completo.

Começou a falar alto, contou uma piada sem graça e tirou a moça para dançar. Detalhe: o bar não tinha pista de dança. Mas, ela foi. E ao som ambiente de um sambinha, colou o corpo no dele, e lhe provocou arrepios. Ele a apertou com mais força. Ela deixou. E ficaram assim, como se não houvesse mais ninguém por perto. João estava feliz. Se soubesse que uns copinhos de bebida iam fazer aquele milagre, já teria saído com as aqueles chatos e metidos do trabalho há mais tempo. Nas nuvens, perguntou se podia levar a moça em casa. E mais uma vez ela topou. Foi à mesa, pegou a bolsa, e deixou todo mundo de boca aberta, quando disse que estava indo embora com ele. E os dois saíram de mãos dadas.

A cabeça de João rodava. Só podia ser por ela, pelo cheiro dela, pelo som da voz e das risadas dela. No carro, ligou o som e ela ouviu com surpresa “Se” de Djavan. Nem acreditou que ele pudesse gostar de quem era, para ela, o maior cantor dos últimos tempos. Os dois cantarolavam a música quando viram a poucos metros na frente uma blitz do Detran. Mais uma operação bafômetro de fim de semana. Ele havia lido nos jornais que desde que implantaram a Lei Seca isso havia se tornado comum, mas isso até então não o preocupava em nada.

Em dezesseis dias do “tolerância zero” para dirigir depois de beber, duzentos motoristas do DF foram pegos em flagrante e tiveram a carteira de habilitação suspensa. Tudo passou muito rápido em sua cabeça. E ele rezou para que não fosse parado. Mas não teve jeito. Abordado, apresentou os documentos, e só ao descer do carro percebeu que mal conseguia ficar em pé. No teste do bafômetro a sentença: 0,59 mg de álcool por litro de sangue, o suficiente para que João perdesse o direito de dirigir por um ano, tivesse o carro recolhido e fosse levado para delegacia. E tudo que ele lembra é do sorrisinho dela, aquele que ele tanto conhecia, ao entrar no táxi e sumir noite adentro, sem dizer ao menos “até segunda-feira!”.

(*) Jornalista e professora de Telejornalismo