quarta-feira, 30 de julho de 2008

"Felicidade Clandestina" (*), por Risomar Fasanaro

Risomar Fasanaro (*)



Quando se fala em 1968 o que vem à cabeça da maioria das pessoas é repressão, tortura, exílio, ato institucional n° 5. Enfim...só se pensa em tristeza. Mas 68 não foi só isso. Havia toda uma juventude envolvida com o que se passava no país, mas que como toda juventude queria aproveitar a vida: cantar, dançar, namorar, enfim...Viver. E isso a ditadura de nenhum país conseguiu impedir.

A Coordenadoria de Relações Internacionais da Prefeitura e o Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco realizaram uma semana de debates sobre a Greve de Osasco, o movimento estudantil, a guerra do Vietnã e a participação das mulheres em 1968.

Por isso prefiro falar do lado feliz daquela época. Não tínhamos computador, nem celular, nem IPOD, nem nada do que encanta os jovens de hoje, mas com nossos pobres mimeógrafos a álcool (quando alguém tinha), produzíamos textos que rodavam pelas escolas, pelas fábricas, pelas faculdades, sempre por debaixo dos panos e um único gravador de fita mini-cassete, que passava de mão em mão para gravar as músicas que participariam dos festivais. A gente nem conhecia o dono do gravador, mas ele chegava às nossas mãos. Isso poderá dar às gerações de hoje o grau de confiança e de solidariedade que nos unia. Mais do que isso, atesta o quanto éramos felizes.

Aquele foi um período de grande efervescência cultural. O movimento político não se dava de uma forma monocórdica, em que só se tratava de militância; ele estava profundamente envolvido com a literatura, com o cinema, com a música, com o teatro. E ao mesmo tempo que se lia os textos de Marx, de Marcuse, de Regis Debret, lia-se muito Oswald de Andrade, Guimarães Rosa, fazia-se questão de ver Terra em Transe de Glauber Rocha, de conhecer todas as canções de Chico, de Caetano, de Gil, de Sérgio Ricardo.

..

Acredito que nos seria impossível resistir às perdas que sofríamos todos os dias, dos nossos amigos, dos nossos professores; impossível resistir ao desespero dos que eram mortos, à saudade dos que partiam para o exílio, se não fôssemos ancorados pelo trabalho daqueles que produziam cultura, dos que produziam arte.

O que seria de nós se não fôssemos embalados pelo canto do Chico Buarque, pelos sons e cores da Tropicália, pela voz de Elis, pelas rodas-de-capoeira, pelas cirandas pernambucanas, pela pílula anticoncepcional, que nos liberou sexualmente, e por tudo que a cultura nos proporcionou naquele período, e que foi de certa forma nossa resposta revolucionária ao que eles nos impunham?

Eles, os que aplicaram o golpe, pensaram que estavam fazendo uma revolução. Que pena... não perceberam que na verdade, não se faz uma revolução apenas com armas, com fardas, atos e decretos. As armas, os decretos, as torturas instauraram apenas o medo, a revolta, o rancor. Revolução foi o que fizemos. Com pensamento, sentimento, criatividade, solidariedade e resistência.

Não saberia dizer (não tenho conhecimento para isso) se as revoluções, frutos da realidade que nos cerca, brotam lentamente na alma das pessoas, germinam, crescem, dão flores e frutos, ou se surgem de repente, sem razão nem perdão e nos levam a mover montanhas. Se são algo maior que nós. E isso, me desculpem os generais, aquela revolução existiu, mas não na direção que eles queriam e sim exatamente no sentido oposto.

E quero aqui reiterar: fomos felizes sim. Muito felizes! Nunca se viu peças de teatro com tamanha riqueza de texto, de montagem, de tudo. Relembrar Os Mutantes com Rita Lee vestida de noiva, a banda toda com o rosto pintado demonstra que a novidade, a vanguarda de hoje surgiu com a nossa geração.

E havia também o Pasquim o jornal que revolucionou a imprensa brasileira. Era impossível não vibrar com as entrevistas que eles publicavam. Ler o Fradim do Henfil, as tiras da Graúna era esquecer qualquer tristeza. Era impossível não gargalhar ao ler no “Última Hora” O Festival de Besteiras que Assola o País, do Stanislaw Ponte Preta. Não, 1968 não foi só tristeza, não foi só tortura, morte, exílio. Foi principalmente carnavalização. Um carnaval de resistência, pois não aceitamos passivamente o açoite dos algozes.

Depois de 68 nunca mais nem o mundo nem o país foram os mesmos. E foi graças à “divina loucura” de Zé Celso, de Glauber Rocha, de Leila Diniz, que hoje estamos aqui.

E não é possível esquecer o chazinho na casa do amigo, em um domingo chuvoso com a voz de Violeta Parra cantando Gracias a La Vida indefinidamente na vitrola. Se não fosse tudo isso, o que teria sido nossa vida durante a ditadura?!

(*) Título de um conto de Clarice Lispector.

* Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora, autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Temores, por Solange Sólon Borges

Solange Sólon Borges(*)



Há mágoas que chegam
com odores de estagnação,
recobertas com véus
póstumos e nódoas.
São ofensivas:
comandam a nau capitânia;
todos os amores e ódios
desterrados são potências.

(*) Jornalista, dedica-se a diversos gêneros literários. Entre outras atividades, atua em alguns programas “O prefácio”, sobre livros e literatura. Um deles é o programa Comunique-se, levado ao ar pela TV interativa ALL TV (2003/2004). Apresentou, também, “Paisagem Feminina”, pela Rádio Gazeta AM (1999), além de crônicas diárias na Rádio Bandeirantes e na Rádio Gazeta — emissoras das quais foi redatora, repórter, locutora e editora.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Amor bandido, por Pedro J. Bondaczuk

Pedro J. Bondaczuk(*)



O amor, para mim, sempre foi (e creio que sempre será) um insondável mistério. Por mais que eu tente racionalizar esse sentimento, sempre esbarro em exemplos, em histórias, em situações que teimam em fugir de qualquer racionalidade e até do bom-senso. Quase nunca (eu diria que nunca mesmo) existe uma lógica que nos leve a nos apaixonar por determinada pessoa, e não por outra que, aparentemente (ou verdadeiramente), lhe seja até superior em diversos predicados, como inteligência, pureza, caráter etc.

Não raro temos a oportunidade de amar alguém de imensa beleza – que nos ama e que até nos atrai fisicamente – mas que, para nós, não é a companhia que procuramos. Falta-lhe aquele “algo mais” (que sequer sabemos definir o que seja) que a torne a cara metade que tanto buscamos (e, às vezes, não encontramos nunca).

Todavia, o amor, na verdade, não é para ser explicado ou entendido, pois não tem explicação. Tem é que ser vivido! Cabe-nos a irrestrita entrega a esse misterioso chamamento, sem questionarmos a razão dessa irresistível e mútua atração. Isso, em termos, claro. Creio que em determinados casos, é melhor resistir do que depois lamentar.

Uma das coisas que não entram na minha cabeça, por mais que me esforce, é o chamado “amor bandido”. Ou seja, o fato de alguém se apaixonar por determinada pessoa que não tem nada, absolutamente nada a lhe oferecer, sequer a desejável reciprocidade e, mesmo assim, considerá-la, ou, pior, identificá-la como seu “príncipe” (ou princesa, no caso dos homens) encantado, a despeito de não ter coisíssima alguma que encante.

Tenho um exemplo desses na minha convivência cotidiana. É a doméstica Jesolina, nordestina, mulata, de uns 30 anos de idade (mas com aparência de ter muito mais), que é amante de um bandido, condenado por assalto a mão armada, reincidente desse crime, e que cumpre longa sentença de prisão em uma penitenciária daqui da região de Campinas.

Trata-se de mulher honestíssima, pela qual coloco a minha mão no fogo, sensível, batalhadora, que há anos presta serviços aqui em casa, onde sempre mereceu nossa irrestrita confiança e sincera estima. Como gostaria que Jesolina tivesse melhor sorte! Quanta gente, mundo afora, que poderia lhe dar vida de rainha, está à procura de alguém com metade dos seus predicados, e não encontra! É uma judiação o que ocorre com ela.

Pergunto-me, com grande freqüência, o que leva essa mulher batalhadora a encarar sua vida com tamanha resignação e continuar amando esse companheiro, irresponsável e irrecuperável, com o qual, certamente, jamais poderá levar uma vida em comum normal, que apenas lhe deu um filho, hoje com sete anos de idade, e nada mais?

Nos dias de visita, sem falhar nenhum, às quintas-feiras e domingos, lá está Jesolina, invariavelmente, na portaria do presídio, submetendo-se às vexatórias, porém necessárias revistas, para visitar o bandido, que sequer valoriza seu sacrifício, sua lealdade, fidelidade e dedicação e, não raro, a ameaça de morte, por questão de ciúmes.

E ai de quem falar mal do seu amado na frente dessa mulher apaixonada! Ela, que normalmente é um doce de pessoa, alegre, otimista e descontraída (apesar de todo esse problema que enfrenta), vira uma fera. Defende seu homem com unhas e dentes, com paixão e sentimento, como se fosse um nobre, um príncipe, um deus, sei lá! Definitivamente, não entendo.

Sei que nada, absolutamente nada no mundo é mais amargo e doloroso do que o drama de um amor que chega ao fim. É uma situação conflitante em que sempre alguém sai ferido. Dói demais, por exemplo, ver que os beijos, as carícias e as palavras meigas e deliciosas que nos eram destinadas tempos atrás, têm por alvo, agora, uma outra pessoa.

Não se pode nunca afirmar, é verdade, que se trate de situação sem volta. O amor perdido pode ser recuperado. Mas as marcas dessa eventual separação não desaparecem. Permanecem para sempre a envenenar o relacionamento que, dificilmente, voltará a ser o mesmo de antes. Mas será que isso é pior do que a escolha de alguém que não tem nada a nos oferecer e que, pelo contrário, arruína definitivamente a nossa vida com sua simples existência? Sei lá! O amor... ah, o amor! Que baita mistério que é...

(*) Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Tolerância zero, por Aliene Coutinho

Aliene Coutinho(*)



Todos os dias, ele acorda no mesmo horário, toma banho, faz a barba e vai ao trabalho, onde cumpre “britanicamente” as obrigações. Nunca cometeu excessos, só o de ser comedido e perfeccionista. Naquela sexta-feira, ele bem que resistiu ao convite de esticar até um barzinho. Nunca foi dessas coisas, é o tipo casa-trabalho, mas era aniversário de uma colega muito especial, a única na repartição que não tirava sarro da cara dele, que dividia a mesa no almoço, e que lhe sorria com cumplicidade ao longo do dia, quando algum engraçadinho resolvia encher seu saco o criticando por deixar tudo tão arrumadinho, ou pela roupa impecável, onde até os jeans tinham vinco.

Ele não podia perder a oportunidade de ficar ao lado dela por mais algumas horas. Quase conseguiu sentar-se ao lado dela, mas no empurra-empurra, acabou ficando na outra ponta da mesa do boteco barulhento. Não ia dar nem para puxar conversa. Pediu uma limonada suíça, enquanto o resto da turma, inclusive a aniversariante, começou a se encher de choppe. E vieram os brindes, e um pedido dela: “Oh, João, só hoje e por mim, bebe uma cervejinha com a gente”. Quem resiste a isso? E João atendeu. Foram um, dois, três, quatro choppes. E ele que nunca havia bebido, mudou por completo.

Começou a falar alto, contou uma piada sem graça e tirou a moça para dançar. Detalhe: o bar não tinha pista de dança. Mas, ela foi. E ao som ambiente de um sambinha, colou o corpo no dele, e lhe provocou arrepios. Ele a apertou com mais força. Ela deixou. E ficaram assim, como se não houvesse mais ninguém por perto. João estava feliz. Se soubesse que uns copinhos de bebida iam fazer aquele milagre, já teria saído com as aqueles chatos e metidos do trabalho há mais tempo. Nas nuvens, perguntou se podia levar a moça em casa. E mais uma vez ela topou. Foi à mesa, pegou a bolsa, e deixou todo mundo de boca aberta, quando disse que estava indo embora com ele. E os dois saíram de mãos dadas.

A cabeça de João rodava. Só podia ser por ela, pelo cheiro dela, pelo som da voz e das risadas dela. No carro, ligou o som e ela ouviu com surpresa “Se” de Djavan. Nem acreditou que ele pudesse gostar de quem era, para ela, o maior cantor dos últimos tempos. Os dois cantarolavam a música quando viram a poucos metros na frente uma blitz do Detran. Mais uma operação bafômetro de fim de semana. Ele havia lido nos jornais que desde que implantaram a Lei Seca isso havia se tornado comum, mas isso até então não o preocupava em nada.

Em dezesseis dias do “tolerância zero” para dirigir depois de beber, duzentos motoristas do DF foram pegos em flagrante e tiveram a carteira de habilitação suspensa. Tudo passou muito rápido em sua cabeça. E ele rezou para que não fosse parado. Mas não teve jeito. Abordado, apresentou os documentos, e só ao descer do carro percebeu que mal conseguia ficar em pé. No teste do bafômetro a sentença: 0,59 mg de álcool por litro de sangue, o suficiente para que João perdesse o direito de dirigir por um ano, tivesse o carro recolhido e fosse levado para delegacia. E tudo que ele lembra é do sorrisinho dela, aquele que ele tanto conhecia, ao entrar no táxi e sumir noite adentro, sem dizer ao menos “até segunda-feira!”.

(*) Jornalista e professora de Telejornalismo

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Eu ainda tenho namorado, por Aliene Coutinho

Aliene Coutinho(*)



Assim que o vi achei que era um índio perdido na cidade – para ser mais exata, na praia. Tinha aquele bronze avermelhado, cabelos pretinhos e lisos, olhos meio puxadinhos, boca pequena. Nem era alto, nem baixo. Nem magro, nem gordo. Era básico, pelo menos para meus conceitos. Troquei olhares, puxei conversa e descobri que de índio só a herança genética, no mais era urbano, universitário. Era de exatas, mas escrevia poesias e adorava literatura.

Aquele encontro em um verão no início dos anos 80 foi apenas o primeiro de uma série. Posso dizer que amadurecemos juntos. Vimos e participamos das mudanças ocorridas em cada um de nós e até mesmo no País. Estávamos juntos na campanha pelas eleições diretas, votamos juntos para Presidente, e também para eleger o primeiro governador do Distrito Federal. Presenciamos a poucos metros do Congresso Nacional o badernaço contra o Plano Cruzado II, que deixou um rastro de violência na Capital, e tantos outros fatos históricos.

Tudo isso, sem falar das nossas histórias pessoais. As formaturas, os primeiros empregos, o aluguel, os amigos em comum, as noites de farra, as discussões, as quase separações, as brigas que todo mundo tem. O morar junto sem pensar no amanhã, mas cheio de compromisso e respeito. Os filhos que vieram depois de anos de convivência, e o pedido de casamento mais depois deles ainda. Duas vidas que seguiam paralelas, mas que de tão perto uma da outra parecia uma só.

Existiam defeitos, imperfeições, crises de choro, de angústia, de solidão. Vontade de jogar tudo para o alto. Momentos para se perguntar se poderia ter sido diferente. Éramos humanos. Gente igualzinha a qualquer outra. Gente que nunca está satisfeita. E os anos foram passando, e um dia quando olhei para trás vi que os calendários se amontoavam em nossa mesa e cama. Estávamos juntos há 24 anos.

Há quem diga que somos quase raridade. Não sei. Aprendi, com o mestre tempo, que não adianta fugir dos problemas, e nem trocar de marido diante de cada um deles. Aprendi que por mais feio que o diabo pareça, se a gente pode contar um com o outro, e olhar um para o outro e vê que ainda resta amor, aí, sim, tudo vale à pena. Até declarar, via internet, que ainda comemoramos o Dia dos Namorados e que eu, pelo menos até esta data, me sinto tão namorada quanto naquele primeiro encontro.

(*) Jornalista e professora de Telejornalismo

sábado, 19 de julho de 2008

Reverso, por Aliene Coutinho

Aliene Coutinho(*)



Quero instigar-me,
colocar-me ao avesso,
parar de medir atitudes
e atos.
Nem menos, nem mais.
Quero ultrapassar limites,
enxergar mais que um palmo,
pisar fundo, estragar o sapato.
cuspir no chão
e nem esperar secar.
Chutar o pau da barraca,
não engolir mais sapos.
Vomitar desejos
e fazê-los realidade.
Olhar no espelho
e se ver sem medo,
nem vontade de
mudar.
Andar na rua, sem rumo.
Ter cabeça de vento
e ser boca aberta
por que não?
Chegar onde nem preciso
E ir além do que conheço.
Apertar a mão do estranho,
sorrir para quem nunca vi.
Dizer sim e não,
e o que der vontade.
Fazer tudo ao contrário
...reviV

(*) Jornalista e professora de Telejornalismo

quarta-feira, 16 de julho de 2008

A ruiva do bar, por Celamar Maione

Celamar Maione(*)



Terminei meu plantão e entrei no boteco, doido por uma cerveja. Trabalhei o sábado inteiro tirando foto de cadáver .Estava puto com a minha vida de merda e com a calhordice humana. Tenho seis irmãos. Sou o filho caçula, o único solteiro. Voltar pra casa significa aturar a úlcera crônica do meu pai e a artrose da minha mãe. Só bebendo pra esquecer.

Pedi uma cerveja ao Antonio. Quando saboreava meu primeiro gole, uma ruiva franzina, cabelos escorridos, olhos de beagle e rosto afilado, entrou e seguiu em direção ao balcão. Pediu um maço de cigarro. Tirou do bolso o dinheiro amassado e jogou pro Antonio. A ruiva me intrigou. Gosto de desvendar mistério. Me aproximei. Ela cheirava a colônia ordinária, misturada com cigarro. Aquele cheiro de vagabunda me deixou com tesão. Resolvi brincar.
- Cigarro faz mal a saúde, gata!.
- Vai se foder, cara! Te perguntei alguma coisa?

Deu um pinote e saiu sem olhar pra trás. Fiquei com cara de babaca. O Antonio riu de peidar. Sentei no meu canto e bebi outro copo. Não era o meu dia de sorte. Decidi acabar com a garrafa e pegar meu ônibus pra Nilópolis. Chegaria em casa, tomaria um banho quente e assistiria uma merda qualquer na tv até pegar no sono.

Pensava na minha cama quentinha, quando a ruiva voltou. Ela sentou-se na minha frente e começou a chorar. Fiquei sem ação. Não sabia se coçava o saco, se pedia outra cerveja, se perguntava o nome dela. Me enrolei todo. Juro. E ela abrindo o berreiro. Nestas horas o Antonio sabia o que fazer. Era um psicólogo de boteco. Trouxe outra cerveja. Enchi um copo e estiquei minha mão pra a ruiva.
- Bebe e pára de chorar, porra!

Ela entornou tudo de uma vez. Arrotou na minha cara, tirou a garrafa da minha mão e encheu o copo de novo. Peguei de volta.
- Peraí, me diz primeiro o que tá acontecendo. Quer se matar?
- Quero.
- Por quê?
- Meu namorado terminou comigo. Tá apaixonado por outra.
- Quantos anos você tem?
- Vinte.
- Tá de sacanagem? Com essa idade e chorando por causa de homem?
- E tem idade pra chorar? Que teoria babaca, cara! Vai me dar sermão agora?
- Tá cheio de homem carente por aí, precisando de um colo – brinquei
- Eu quero ele.
- Ele fode gostoso?
- Caramba, você é mais grosso do que eu. Vou nessa me atirar na frente de um carro.
- Peraí. Não faz drama . Senta.

Segurei o braço da ruiva, aflito. Eu atraia morte. “Vou dar um porre nessa aprendiz de suicida“ – pensei. Bebemos oito garrafas de cerveja. Ela ficou alegrinha. Ria de qualquer besteira que eu falava. Uma da madrugada. A essa hora não voltaria mais para Nilópolis. Joguei:
- E ai, ruiva? Onde você mora?
- Pô eu moro com o meu ex. Mas ele não deve tá e eu não tenho a chave.
- O que você acha da gente dormir num motel aqui na Mem de Sá?
- É um convite?
- Se você quiser.
- Vamos nessa.

Agarrei a ruiva pelo ombro e lá fomos nós desafiando a madrugada. Entramos num motelzinho ordinário, como ela. Subimos por uma escada de madeira barulhenta. Abri a porta. O cheiro de mofo me deu azia. Escancarei a janela cheirando a cupim. A ruiva sentou na cama. Perguntei, tirando a calça:
- Quem vai tomar banho primeiro?
- Vai você.
- Fica quieta aí, hein?! Não vai fazer merda!
- Pode deixar!
- Posso te fazer uma pergunta?
- Faz.
- Tá menstruada?
- Não.Por quê?
- Não transo com mulher menstruada.
- E quem disse que a gente vai transar?
- É, não vai.

Tomei um banho frio. Esfreguei o sabonete quase arranhando meu corpo. Acho que eu tinha esperança de me livrar das mazelas daquele dia com água e sabão. Saí do banheiro sem roupa. A ruiva foi tomar banho. Voltou nua. Muito magra. Branca demais. Pálida. Perdi o tesão. Mas não podia recusar carne fresca. Não tem coisa pior para um macho do que ser chamado de broxa. Fechei os olhos e pensei na peituda da minha rua que não me dava bola. Deu certo. Foi rapidinho. Peguei no sono com a ruiva reclamando:
- Igual a todos os homens. Fode mal. Vira pro o lado e dorme. Babaca.

Acordei com o estômago reclamando e o hálito fedegoso. Sete horas. Olhei para o lado e não vi a ruiva. Tomei uma chuveirada. Peguei minhas coisas e o maço de cigarro dela em cima da cadeira. O cara da portaria não a viu sair. Caminhei pelas ruas com um mau pressentimento. Quando entrei na Gomes Freire vi uma pequena multidão olhando pro céu. Era a ruiva, do alto de um prédio, ameaçando se jogar. Me aproximei de um cara vestido com roupa de trocador.
- Há quanto tempo ela tá aí?
- Sei não. Cheguei agora. Tão comentando que ela foi corneada. Acho que o namorado é aquele ali.

Vi o cara conversando com um policial. Fui até eles e me identifiquei. O rapaz era o namorado da ruiva. Chamei o colega para um canto e comentei:
- Se o cara tá aí, ela não vai se jogar
- Como é que você sabe? Conhece a moça?
- De vista. Quando ela sair do terraço, dá o maço de cigarro pra ela. Diz que foi o, diz nada não. Tchau.

“Caramba” - pensei. “Fui pra cama com a mulher e nem sei o nome dela.”. Andei até a Central do Brasil e peguei meu ônibus pra casa. Sentei no último banco. Olhei pela janela e respirei o ar poluído. O céu azul me deixou esperançoso. Me deu vontade de cochilar. Recostei no banco e quando tava quase dormindo, escutei alguém gritando:
- Perdeu, cara! Perdeu!. Dá o celular, anda!. Vou te furar todo! Porra, passa logo!

Dois homens roubavam os passageiros. Quando chegou a minha vez foi tudo muito rápido. Prendi a respiração, peguei minha pistola e mirei no assaltante com o trêsoitão:
- Vamos ver quem vai pro inferno primeiro!?


(*) Radialista e jornalista, trabalhou como produtora, repórter e redatora nas Rádios Fm O DIA, Tropical e Rádio Globo. Foi Produtora-Executiva da Rádio Tupi. Lecionou Telemarketing, atendimento ao público e comportamento do Operador , mas sua paixão é escrever, notadamente poesias e contos.