A onça e o monte, por Juliano Luís Pereira Sanches
Juliano Luís Pereira Sanches (*)
Num certo período do dia, o tempo e natureza pedem um espaço para os seres se desabafarem. Querem se expressar, contar o que sentem. De olhos e ouvidos aguçados, São Francisco de Assis e Grande Amigo, índio xavante, ouvem os pedidos e aparecem perto de um rio que abrilhanta o alto da montanha. Com sua astúcia, Grande Amigo põe bocas na pedra e no monte alto, sons nos lábios dos protetores da natureza, vida e movimento no que é inanimado. Para ajudar Grande Amigo, Francisco começa a fazer uma oração.
– Ó Criador, nos faça instrumentos de vossa paz. Fazei com que, todos nós, possamos amar, ao invés de esperarmos sermos amados, pois é dando que se recebe.
Todos se alegram com a chegada dos dois, tão percebida como o espetáculo da alvorada. De repente, os amigos pássaros começam a prestar atenção no intenso monólogo. Cheio de raiva e dores internas, o monte reclama sobre sua vida, e sente inveja da onça.
– Estou aqui há anos sem sair do lugar, e o que ganho com isso? Tenho que disfarçar ser pedra, quando sou ser, fingir ser inanimado, quando sou parte de um todo consciente. Queria correr como você. Passar em volta das amigas árvores e beber a água que o amigo rio lhe dá.
Francisco e Grande Amigo chamam a amiga onça, para ajudá-lo. A onça, com seu intenso rajado, não se incomoda com o irmão, que apesar de ser tão grande e majestoso, não reconhece a gigantesca força que tem dentro de si. Ela aconselha o monte.
– Sinta a poderosa rocha que há em você. O seu ganho é a sua existência, tão prazerosa e completa se for bem vivida. Cada um de nós faz a sua parte. O rio dá a água sem esperar algo dos outros, porque sabe que ele se completa a cada dia, em sua confiança, em sua verdade. Honro a cada momento que vivo. Em seu seio, quantas vidas você sustenta? As amigas plantas e os demais amigos animais encontram em você uma casa para viver e glorificar o Criador. Sinta o amor que os seus amigos vibram. Você é um todo.
À sombra do monte, a boca de uma pequena pedra começa a se mexer.
– Caro amigo, o agradecimento dá força e nos prepara para o que nos aguarda.
A vibração de todos surte efeito e o alto do monte se encanta de alegria com a chegada de um lindo arco-íris. A plantas e os animais fazem pares. A harmonia retorna a casa, ao coração dos seres. A festa da vida é retomada, para manter os seus belos prazeres.
(*) Jornalista, folclorista e poeta de Campinas. Foi repórter de assuntos gerais nos programas Sexta Cultural, Fractal, Jornal da Educativa e Bom Dia Campinas, da Rádio Educativa FM 101.9 (www.campinas.sp.gov.br). Atualmente, é apresentador, repórter e produtor do programa de jornalismo educativo Ponto & Vírgula da Rádio Educativa em parceria com a Secretaria de Educação de Campinas. Colaborador do Portal Sorocult (www.sorocult.com), e colunista do Jornalzen (www.jornalzen.com.br), de Campinas.
quarta-feira, 13 de maio de 2009
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Sem palavras, por Rodrigo Ramazzini
Rodrigo Ramazzini (*)
- Meu amigo Joel, te prepara!
- Ué! Por quê?
- Olha pra trás e vê quem está vindo.
- Quem?
- Olha!
- Putz! Não acredito! Pior que ela está vindo aqui...
- A mulher é tua... Segura a fera! Será que vem te buscar?
- Com certeza! Vai fazer barraco de novo...
- Bah! Eu me lembro da última vez.
- Nem me fala! Nunca mais fui naquele bar de vergonha. Está perto?
- Arãn!
- Está com cara de braba?
- Não! Pelo contrário. Vem com um sorriso no rosto... Toda produzida... E...
- E o quê?
- Desculpa a indiscrição, mas a tua mulher está em forma, hein?
- Por que estás dizendo isso?
- A saia que ela está usando... Como posso dizer... Está deixando um belo par de coxas a mostra.
- Pára de olhar para a minha mulher, Fonseca!
- Foi só um comentário...
- Cadê ela?
- Ela... Ela... Ué! Cadê? Ah... Sentou-se em uma mesa lá perto do banheiro.
- Ai! Ai! Ai!
- O que foi?
- O que eu faço agora?
- Boa pergunta, meu amigo.
- Ela está olhando pra cá?
- Não! O garçom está lhe atendendo. Pediu uma cerveja pelo jeito...
- Meu Deus! Meu Deus! O que eu faço agora?
- Vai lá!
- Se eu for lá, ela vai querer vir sempre junto...
- E qual o problema?
- Acorda, Fonseca! Vê se eu quero vir pro boteco com a minha mulher...
- Fazer o quê...
- Fazer o que nada... Olha a mulherada na volta! Que pesadelo!
- Pois é...
- O que eu faço? O que eu faço?
- Ela está olhando pra cá!
- E?
- Acenou com o copo...
- Meu Deus!
- Olha Joel! Se eu fosse tu, eu iria lá... Já tens uns gaviões “rondando”!
- Não adianta mesmo, é aquele ditado: “mulher da gente é que nem Chuchu, não tem gosto, não tem cheiro, mas se tu não comer, os outros comem...”
- Joel e os seus ditados machistas! Vai lá se não quem vai se enquadrar em algum ditado de corno...
- Opa! Opa! Nem completa... Estou indo!
- Oi querida! Posso sentar?
- Não, Joel!
- Por que não?
- Porque não! Estou a fim de tomar uma cerveja sozinha. Não posso?
- Que palhaçada é essa, Marília?
- Por que palhaçada? Pode me dizer?
- Era só o que me faltava... Minha mulher freqüentadora de boteco.
- Ué! Por que só tu podes vir para uma mesa de bar tomar cerveja, hein? Qual o problema? Eu também gosto! Quantas vezes tu já chegaste em casa de madrugada, dizendo que só estava tomando uma cervejinha... Ingenuamente com os amigos...
- É... Hã... Hã... Hã!
- Pois é! Hoje é a minha vez...
- Mas...
- Mas nada! Pode saindo. Eu disse que não podia sentar... Essa cadeira vai ser ocupada.
- Está esperando alguém?
- Arãn!
- Quem?
- As mulheres dos teus amigos também já devem estar chegando...
- Como é que é?
- Isso mesmo que tu ouviste! A mulher do Breno, do Richard, do Guazzeli e até do Fonseca, que estava ali tomando cerveja contigo virão pra cá...
- Mas o que é isso? Complô das calcinhas?
- Ah! Toma.
- O que é isso?
- Ué! Não reconhece? A chave de casa...
- Pra quê?
- É melhor levar... Não precisa me esperar... Eu toco a campainha... Vou ficar por aqui tomando um choppinho ingenuamente com as meninas.
(*) Jornalista e cronista.
- Meu amigo Joel, te prepara!
- Ué! Por quê?
- Olha pra trás e vê quem está vindo.
- Quem?
- Olha!
- Putz! Não acredito! Pior que ela está vindo aqui...
- A mulher é tua... Segura a fera! Será que vem te buscar?
- Com certeza! Vai fazer barraco de novo...
- Bah! Eu me lembro da última vez.
- Nem me fala! Nunca mais fui naquele bar de vergonha. Está perto?
- Arãn!
- Está com cara de braba?
- Não! Pelo contrário. Vem com um sorriso no rosto... Toda produzida... E...
- E o quê?
- Desculpa a indiscrição, mas a tua mulher está em forma, hein?
- Por que estás dizendo isso?
- A saia que ela está usando... Como posso dizer... Está deixando um belo par de coxas a mostra.
- Pára de olhar para a minha mulher, Fonseca!
- Foi só um comentário...
- Cadê ela?
- Ela... Ela... Ué! Cadê? Ah... Sentou-se em uma mesa lá perto do banheiro.
- Ai! Ai! Ai!
- O que foi?
- O que eu faço agora?
- Boa pergunta, meu amigo.
- Ela está olhando pra cá?
- Não! O garçom está lhe atendendo. Pediu uma cerveja pelo jeito...
- Meu Deus! Meu Deus! O que eu faço agora?
- Vai lá!
- Se eu for lá, ela vai querer vir sempre junto...
- E qual o problema?
- Acorda, Fonseca! Vê se eu quero vir pro boteco com a minha mulher...
- Fazer o quê...
- Fazer o que nada... Olha a mulherada na volta! Que pesadelo!
- Pois é...
- O que eu faço? O que eu faço?
- Ela está olhando pra cá!
- E?
- Acenou com o copo...
- Meu Deus!
- Olha Joel! Se eu fosse tu, eu iria lá... Já tens uns gaviões “rondando”!
- Não adianta mesmo, é aquele ditado: “mulher da gente é que nem Chuchu, não tem gosto, não tem cheiro, mas se tu não comer, os outros comem...”
- Joel e os seus ditados machistas! Vai lá se não quem vai se enquadrar em algum ditado de corno...
- Opa! Opa! Nem completa... Estou indo!
- Oi querida! Posso sentar?
- Não, Joel!
- Por que não?
- Porque não! Estou a fim de tomar uma cerveja sozinha. Não posso?
- Que palhaçada é essa, Marília?
- Por que palhaçada? Pode me dizer?
- Era só o que me faltava... Minha mulher freqüentadora de boteco.
- Ué! Por que só tu podes vir para uma mesa de bar tomar cerveja, hein? Qual o problema? Eu também gosto! Quantas vezes tu já chegaste em casa de madrugada, dizendo que só estava tomando uma cervejinha... Ingenuamente com os amigos...
- É... Hã... Hã... Hã!
- Pois é! Hoje é a minha vez...
- Mas...
- Mas nada! Pode saindo. Eu disse que não podia sentar... Essa cadeira vai ser ocupada.
- Está esperando alguém?
- Arãn!
- Quem?
- As mulheres dos teus amigos também já devem estar chegando...
- Como é que é?
- Isso mesmo que tu ouviste! A mulher do Breno, do Richard, do Guazzeli e até do Fonseca, que estava ali tomando cerveja contigo virão pra cá...
- Mas o que é isso? Complô das calcinhas?
- Ah! Toma.
- O que é isso?
- Ué! Não reconhece? A chave de casa...
- Pra quê?
- É melhor levar... Não precisa me esperar... Eu toco a campainha... Vou ficar por aqui tomando um choppinho ingenuamente com as meninas.
(*) Jornalista e cronista.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Verão, por Talis Andrade
Talis Andrade (*)
Me espreguiço
no teu corpo
na doce dolên
cia da rede
Me espreguiço
no teu corpo
na doce sono
lência dos
cafunés e
dos ventos
mormacentos
(Do livro “Cavalos da Miragem”, Editora Livro Rápido – Olinda/PE).
(*) Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do Diário da Noite, Jornal do Comércio (Recife), Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).
Me espreguiço
no teu corpo
na doce dolên
cia da rede
Me espreguiço
no teu corpo
na doce sono
lência dos
cafunés e
dos ventos
mormacentos
(Do livro “Cavalos da Miragem”, Editora Livro Rápido – Olinda/PE).
(*) Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do Diário da Noite, Jornal do Comércio (Recife), Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Chuva, por Fabiana Bórgia
Chuva, por Fabiana Bórgia
Fabiana Bórgia (*)
Chove
uma chuva macia
e forte
Vinho
tinto
seco
Amor
forte
denso
Chuva, vinho, amor
combinação perfeita
tinto seco
paixão úmida
Calor
Colo
Paz
Tua presença:
um temporal
(Do livro “Desconexos”, Íbis Libris – Rio de Janeiro).
(*) Poetisa e advogada, fazendo especialização em Leitura e Produção Textual, autora do livro “Traços de Personalidade”
Fabiana Bórgia (*)
Chove
uma chuva macia
e forte
Vinho
tinto
seco
Amor
forte
denso
Chuva, vinho, amor
combinação perfeita
tinto seco
paixão úmida
Calor
Colo
Paz
Tua presença:
um temporal
(Do livro “Desconexos”, Íbis Libris – Rio de Janeiro).
(*) Poetisa e advogada, fazendo especialização em Leitura e Produção Textual, autora do livro “Traços de Personalidade”
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Uma rosa, por Evelyne Furtado
Evelyne Furtado (*)
Você me deu uma rosa linda e mais uma vez viu o brilho nos meus olhos. Você vai dizer que não foi bem uma flor que me ofereceu e eu vou teimar como sempre faço. Foi uma rosa, sim.
Eu não me enganei, pois estava escrito com as quatro letras que a designa e outras tantas palavras confirmando que o presente que você me deu era uma rosa sensível, bela e impermanente. Tal como o amor.
Foi isso que o fez lembrar de mim o que amplia o significado do presente. Você conhece frente e verso de mim. Você sabe até onde sou capaz de ir e diz que eu pareço uma adolescente.
A propósito, pensei muito sobre isso. Lembrei que outras pessoas nos últimos dias duvidaram da minha idade e pasme: fui além da vaidade, questionando minhas atitudes.
Será que sou tão imatura assim? Será que meu comportamento não é adequado à mãe de uma arquiteta que tem a idade que eu tinha quando casei? Não achei uma resposta precisa.
Acontece que coração não tem rugas. Essa frase ouvi minha mãe dizer a uma amiga no telefone há algum tempo e hoje faz todo sentido. O meu coração tem cicatrizes, mas aposto que tem menos rugas do que o meu rosto. Talvez seja este o motivo de parecer uma adolescente aos seus olhos.
Um coração só envelhece quando perde a capacidade de sonhar e o meu não perdeu. Por isso você me deu uma rosa. Eu cultuo um sonho bonito e você faz parte dele.
(*) Cronista e poetisa em Natal/RN
Você me deu uma rosa linda e mais uma vez viu o brilho nos meus olhos. Você vai dizer que não foi bem uma flor que me ofereceu e eu vou teimar como sempre faço. Foi uma rosa, sim.
Eu não me enganei, pois estava escrito com as quatro letras que a designa e outras tantas palavras confirmando que o presente que você me deu era uma rosa sensível, bela e impermanente. Tal como o amor.
Foi isso que o fez lembrar de mim o que amplia o significado do presente. Você conhece frente e verso de mim. Você sabe até onde sou capaz de ir e diz que eu pareço uma adolescente.
A propósito, pensei muito sobre isso. Lembrei que outras pessoas nos últimos dias duvidaram da minha idade e pasme: fui além da vaidade, questionando minhas atitudes.
Será que sou tão imatura assim? Será que meu comportamento não é adequado à mãe de uma arquiteta que tem a idade que eu tinha quando casei? Não achei uma resposta precisa.
Acontece que coração não tem rugas. Essa frase ouvi minha mãe dizer a uma amiga no telefone há algum tempo e hoje faz todo sentido. O meu coração tem cicatrizes, mas aposto que tem menos rugas do que o meu rosto. Talvez seja este o motivo de parecer uma adolescente aos seus olhos.
Um coração só envelhece quando perde a capacidade de sonhar e o meu não perdeu. Por isso você me deu uma rosa. Eu cultuo um sonho bonito e você faz parte dele.
(*) Cronista e poetisa em Natal/RN
terça-feira, 14 de abril de 2009
Ato de resistência, por Marcos Alves
Marcos Alves (*)
As palavras livres voam e pertencem, depois de lidas, a quem as compreende e interpreta. Surge então a figura do leitor, que ao emprestar ao texto suas impressões se torna parte do universo ali descrito.
Escrever é sagrado. Escrever é profano. Escrever é coisa do ser humano. Ato solitário, vontade de se expor, coragem de dizer aquilo que se pensa.
Mesmo quando mente ou inventa, o escritor se expõe. Faz isso de propósito, brinca com as sutilezas do cotidiano enquanto deixa aqui e ali suas angústias, desejos, ironias e frustrações.
O texto jornalístico não permite abstrações, sabemos. A indústria da informação precisa de conteúdo objetivo, direto e sem rodeios. Quando muito se permite ilustrar com personagens e histórias de vida os fatos reportados.
Mas a isenção nunca vai ser total, completa, afinal somos humanos e quando escrevemos geralmente falamos de nossos semelhantes. Nos envolvemos, mas só podemos dar nossa opinião depois do expediente ou na roda do cafezinho.
Isso é muito pouco para quem carrega dentro de si o amor pela Literatura. Esse tipo de jornalista quer mais, não se conforma com esse limite, procura então outros espaços onde possa expressar as imagens e histórias que lhe habitam a alma.
Longe de ser uma válvula de escape o ato de escrever é um ato de resistência. Quando saímos do ramerrão, da fórmula, da produção, enfim, da roda viva que é escrever como quem produz parafusos ou arroz; quando deixamos sobre o papel aquilo que realmente queremos deixar, adquirimos um pouco mais de dignidade.
O Literário é um desses lugares onde o jornalista encontra e descreve o ser humano em toda sua crueza e magnitude; sem restrições ou interferências. É por isso que estamos aqui e é para isso que se presta a nobre arte de encadear palavras. Falar de nós mesmos para nós mesmos sobre aquilo que somos. Não é pouca coisa.
(*) Jornalista
As palavras livres voam e pertencem, depois de lidas, a quem as compreende e interpreta. Surge então a figura do leitor, que ao emprestar ao texto suas impressões se torna parte do universo ali descrito.
Escrever é sagrado. Escrever é profano. Escrever é coisa do ser humano. Ato solitário, vontade de se expor, coragem de dizer aquilo que se pensa.
Mesmo quando mente ou inventa, o escritor se expõe. Faz isso de propósito, brinca com as sutilezas do cotidiano enquanto deixa aqui e ali suas angústias, desejos, ironias e frustrações.
O texto jornalístico não permite abstrações, sabemos. A indústria da informação precisa de conteúdo objetivo, direto e sem rodeios. Quando muito se permite ilustrar com personagens e histórias de vida os fatos reportados.
Mas a isenção nunca vai ser total, completa, afinal somos humanos e quando escrevemos geralmente falamos de nossos semelhantes. Nos envolvemos, mas só podemos dar nossa opinião depois do expediente ou na roda do cafezinho.
Isso é muito pouco para quem carrega dentro de si o amor pela Literatura. Esse tipo de jornalista quer mais, não se conforma com esse limite, procura então outros espaços onde possa expressar as imagens e histórias que lhe habitam a alma.
Longe de ser uma válvula de escape o ato de escrever é um ato de resistência. Quando saímos do ramerrão, da fórmula, da produção, enfim, da roda viva que é escrever como quem produz parafusos ou arroz; quando deixamos sobre o papel aquilo que realmente queremos deixar, adquirimos um pouco mais de dignidade.
O Literário é um desses lugares onde o jornalista encontra e descreve o ser humano em toda sua crueza e magnitude; sem restrições ou interferências. É por isso que estamos aqui e é para isso que se presta a nobre arte de encadear palavras. Falar de nós mesmos para nós mesmos sobre aquilo que somos. Não é pouca coisa.
(*) Jornalista
segunda-feira, 6 de abril de 2009
O “desafio” de Pedro, por Marco Albertim
Marco Albertim (*)
Pedro pediu, pediu-nos para escrever sobre o terceiro aniversário do Literário; lançou-nos, conforme ele, um “desafio”; algo que, feito, terá amadurecido o escritor; a si e ao espaço de sua escrita. Começo meio que constrangido, porquanto a desafios estão acostumados os poetas repentistas. Os repentistas têm na ponta da língua a resposta ao desafio, nutrem-se da porfia, são cúmplices nas acusações mútuas. Escrevo, eu, não por desafio, mas para reconciliar-me com o outro eu que carrego nos sentidos. Escrever é um desafio episódico, visto que se circunscreve em algum limite das 24 horas do dia, da noite. Estas sim, posto que somadas, darão chances ao feito da escrita. Acordar é um desafio, sobretudo na segunda-feira, como faço agora.
Acordo simulando felicidade, com alguma astúcia. Pedro, inda que longe, está à espreita; por certo já terá escovado os dentes. Depois de cevar-se no primeiro desjejum, assuntará o que nós ou alguns de nós estarão assuntando para o seu “desafio” – esperto, ele trajou o “desafio” com enfeites de pedido, deixou-nos ainda mais desafiados. Sinto-me como da primeira vez em que escrevi para o Literário, confuso, desjeitoso; mas embeiçado na tenção de tornar-me um colaborador; não um colunista; o colunista escreve como se estivesse fazendo a assepsia do busto de Coelho Neto a seu lado, junto de outros enfeites. Sem desmerecer Os pombos, conto belíssimo de Coelho. O encomendado a um amigo a compra de um busto de Machado de Assis, em São Paulo
O sacana encheu-se de chopes e esqueceu a compra; ele próprio um machadiano empedrado. Tenho, e com ele troco ideias, o sopro de um vento que Cirilo, o pescador que me vende o peixe, diz vir do sudeste; “...ele sempre vem do sudeste, por isso não precisamos fazer o bordejo para chegar ao local onde deixamos a rede”. Cirilo não sabe escrever, mas é tão objetivo nas rotas que faz inveja ao escritor apurado. O diálogo que tive com o vento, vindo do sudeste, acentuou-me o dever do ofício; de tal modo que fiz de Pedro o interlocutor, sem ajuizar a extensão de sua voz; imagino-a, agora, cava, combinando com a quadratura do rosto. E vejo-me com dezoito anos, no primeiro trabalho.
“Rapaz, vá ao banco depositar este dinheiro. Não esqueça de trazer o comprovante do depósito!” – advertira-me o gerente do escritório. Quando saí da sala, o outro boy chamou-me a um canto: “Se demorar ele pensa que você parou para ouvir o camelô falar...” O gerente me falou com a mesma voz que imagino ser a de Pedro, agora: “O desafio, rapaz!”
Parei para ouvir o camelô fazendo o pregão de um remédio para todas as curas. Um milagre na Praça da Independência! Com farmácias em volta, vendendo caro, remédios de cura duvidosa. O camelô me convenceu, queria estar doente, eu, para ser sua cobaia. Tempos depois, dei-me conta de que a oratória do camelô, longa, concisa, inda que na boca babona, era um discurso apurado, mais apurado que o arrazoado de um desembargador emaranhado em latins tardios. O camelô foi o primeiro homem a me impressionar com o uso das palavras. Pedro... Tenho saudades do camelô. Agradeça a ele, in memoriam, eu ter aceito o seu “desafio.” Obrigado, Pedro Bondaczuk.
(*) Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.
Pedro pediu, pediu-nos para escrever sobre o terceiro aniversário do Literário; lançou-nos, conforme ele, um “desafio”; algo que, feito, terá amadurecido o escritor; a si e ao espaço de sua escrita. Começo meio que constrangido, porquanto a desafios estão acostumados os poetas repentistas. Os repentistas têm na ponta da língua a resposta ao desafio, nutrem-se da porfia, são cúmplices nas acusações mútuas. Escrevo, eu, não por desafio, mas para reconciliar-me com o outro eu que carrego nos sentidos. Escrever é um desafio episódico, visto que se circunscreve em algum limite das 24 horas do dia, da noite. Estas sim, posto que somadas, darão chances ao feito da escrita. Acordar é um desafio, sobretudo na segunda-feira, como faço agora.
Acordo simulando felicidade, com alguma astúcia. Pedro, inda que longe, está à espreita; por certo já terá escovado os dentes. Depois de cevar-se no primeiro desjejum, assuntará o que nós ou alguns de nós estarão assuntando para o seu “desafio” – esperto, ele trajou o “desafio” com enfeites de pedido, deixou-nos ainda mais desafiados. Sinto-me como da primeira vez em que escrevi para o Literário, confuso, desjeitoso; mas embeiçado na tenção de tornar-me um colaborador; não um colunista; o colunista escreve como se estivesse fazendo a assepsia do busto de Coelho Neto a seu lado, junto de outros enfeites. Sem desmerecer Os pombos, conto belíssimo de Coelho. O encomendado a um amigo a compra de um busto de Machado de Assis, em São Paulo
O sacana encheu-se de chopes e esqueceu a compra; ele próprio um machadiano empedrado. Tenho, e com ele troco ideias, o sopro de um vento que Cirilo, o pescador que me vende o peixe, diz vir do sudeste; “...ele sempre vem do sudeste, por isso não precisamos fazer o bordejo para chegar ao local onde deixamos a rede”. Cirilo não sabe escrever, mas é tão objetivo nas rotas que faz inveja ao escritor apurado. O diálogo que tive com o vento, vindo do sudeste, acentuou-me o dever do ofício; de tal modo que fiz de Pedro o interlocutor, sem ajuizar a extensão de sua voz; imagino-a, agora, cava, combinando com a quadratura do rosto. E vejo-me com dezoito anos, no primeiro trabalho.
“Rapaz, vá ao banco depositar este dinheiro. Não esqueça de trazer o comprovante do depósito!” – advertira-me o gerente do escritório. Quando saí da sala, o outro boy chamou-me a um canto: “Se demorar ele pensa que você parou para ouvir o camelô falar...” O gerente me falou com a mesma voz que imagino ser a de Pedro, agora: “O desafio, rapaz!”
Parei para ouvir o camelô fazendo o pregão de um remédio para todas as curas. Um milagre na Praça da Independência! Com farmácias em volta, vendendo caro, remédios de cura duvidosa. O camelô me convenceu, queria estar doente, eu, para ser sua cobaia. Tempos depois, dei-me conta de que a oratória do camelô, longa, concisa, inda que na boca babona, era um discurso apurado, mais apurado que o arrazoado de um desembargador emaranhado em latins tardios. O camelô foi o primeiro homem a me impressionar com o uso das palavras. Pedro... Tenho saudades do camelô. Agradeça a ele, in memoriam, eu ter aceito o seu “desafio.” Obrigado, Pedro Bondaczuk.
(*) Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.
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