Evelyne Furtado (*)
Nenhum homem canta melhor as mulheres do que Chico Buarque de Holanda. Chico cantou e canta todas nós em todas nossas matizes. De Carolina a Geni. Da Rita à mãe do Meu Guri. Encontro-me em seus versos, banhada pelo luar ou usando açúcar e afeto para você parar em casa.
Sou Joana Francesa e a dona do Folhetim. Já fui quase uma das Mulheres de Atenas e olhei nos seus olhos para ver o que você dizia. Já vi a Banda passar cantando coisas de amor. Até vi Boi Voador. Vi-me sem um pedaço de mim e nunca uma saudade doeu tanto.
Fui Maria, a princesa, o brinquedo e uma das três noivas do cowboy. Também fui deixada em uma ladeira do Bonfim e não devolvi seu Neruda, que você não me emprestou. Cantei Olé Olá e esperei o samba para não chorar.
Queimei meus navios e já não sabia mais nadar, quando tuas mãos ainda estavam em meu seio e era hora de partir. Como se “Eu Te Amo” tem uma das mais lindas letras da Música Popular Brasileira? Para mim a mais bonita sim. Mas nada que Chico escreveu chega longe da beleza. Nada! Nem mesmo o sonho medonho, pois se encerra ternamente com um apelo para o aconchego.
E fico por aqui, lembrando quantas vezes falei que o meu amor tem um jeito manso que é só seu, que me deixa louca, quando me beija a boca. Lembro ainda nas outras tantas que pedi para que o menino viesse sem fantasia, pois da noite para o dia ele não cresceria. Nem eu, eternamente a menina de onze anos como no dia em que vi aqueles olhos tímidos no saguão do aeroporto aqui em Natal.
Obs.: Este texto nasceu depois de assistir mais uma vez o musical Mulheres de Holanda. Ousei brincar com as letras do poeta genial e querido Chico Buarque. Com sua licença, moço dos olhos do mar.
(*) Cronista e poetisa em Natal/RN
segunda-feira, 9 de março de 2009
terça-feira, 3 de março de 2009
As Pretinhas do Congo, por Marco Albertim
Marco Albertim (*)
A água do rio Goiana não refletiu as cores da bandeira d’As Pretinhas do Congo; não neste carnaval. Justo no ano em que o bloco conseguiu dois mil reais da Fundarpe, para mostrar sua devoção à iabá que a protege. Trinta negros, entre homens e mulheres, a maioria moços, usando roupas vermelhas e negras, puseram-se entre o rio e a casa. A bandeira, abrigada na sala, apoiada na parede feito um altar; a ponta, em cima, alcançou o telhado. Valdo, o pescador, pusera-a ali para, no culto ruidoso que faz em homenagem ao orixá, aumentar a força da divindade; sentir, ele, os benefícios no fundo do jereré içado do rio. Pusera-a antevendo siris, camarões, pitus, peixes miúdos. Fora tecelão o negro de 71 anos. A fábrica fechou, faliu, ele virou pescador, forçou-se dentro de uma canoa, no manejo do remo, inda que a usina tenha tingido a água com a calda da cana.
Ele grita com as moças que chegam atrasadas, grita e tira do bolso uma bisnaga com perfume, o extrato comprado na feira; espirra-o nas costas, no pescoço de cada uma. Às quatro da tarde, o cheiro do azedo massapê, vindo do canavial, ainda invade o casario. As negras, perfumadas, não sentem mais a calda que mata o cundunda; magras, esquecem a fome; montadas em cambitos, com força para se espremerem na rua estreita, de ladeira de subida. Há uma grávida, de rosto amarelo, os dentes expondo a alegria; a prenhez inchou-a nas pernas; ouvirá aplauso e ninguém para fazer pouco de seu rosto impaludado.
- Todo mundo em forma! – grita Valdo.
O rosto do negro é tisnado de sinais sob os olhos; o chapéu de feltro, preto, é o mesmo que usa o ano inteiro; camisa vermelha, calça preta, combinando com o traje das moças.
Valdo passa o ano sem gritar. No domingo de carnaval, desde o distante ano 51, grita feito um capitão-do-mato. Não foi escravo, mas o pai por certo fora vergastado pelo capitão do banguê.
- Vixe...! Seu Valdo tá é estressado! – diz a moça que segura a bandeira.
É uma negra com dezessete anos; veste-se como as outras; no penteado, dividira os cabelos no meio da cabeça, curvando-o para cima, para os lados, endurecendo-o com o laquê. No aplauso, não terá ninguém para fazer pouco do artifício na cabeça crescida pelos cabelos. É nova no estandarte, não sabe que está escrito 1936, o ano da fundação; sabe que carrega o distintivo de sua raça, do que assuntaram na seroada da calçada, olhando a cumplicidade muda do rio. Sabe que a bandeira é verde, vermelha, tem letras amarelas e listras brancas, como um dia será sua rotina cinzenta.
Trrrrrrr... Valdo trina o apito; ele mesmo puxa o canto. Não é um frevo, lembra um samba de feitio primitivo, de quem se orgulha de ter posto a nação para o povo apreciar.
“Quem disse que as Pretinhas não saía...” – Não é um tropeço na concordância, é uma minúcia que dá conta do paradeiro do autor; acomoda-se aos rostos magros, à frouxura das roupas; minúcia plástica.
A nação põe-se a andar, sem olhar para o aumento das águas com as últimas chuvas. A vegetação vinda da camboa longe dá sinal de que há vida no rio; menos mal. Algum dia não haverá despejo de calda.
As negras repetem o canto. Dona Biu chegou por último, levantando a barra da saia para não embeber-se nas poças. É a única que usa blusa e saia brancas, prateadas. Põe-se atrás do rei e da rainha. Vende fumo num banco de feira, usa-o no seu cachimbo bronco, mesmo no desfile da nação; só tira-o da boca quando repete o canto, segurando-o com a mão levantada, perto da boca. É a mais velha. O capitão-do-mato não a repreende, ele mesmo um useiro do fumo de rolo.
Pulam, dançam. O capitão não se permite um pulo. Respeitam-no porque seu passo é de comando. O rei e a rainha, de amarelo, não dançam; andam ouvindo a corte sacudindo o maracá, balançando o colar branco, o turbante da mesma cor. Não reparam no cortejo, posto que os súditos, reverentes, já os têm sob cuidados.
O pano branco sobre o ombro de Valdo não compõe o personagem, inda que não seja estranho a ele nem à corte. Não o mostra como uma prerrogativa, pendura-o como um direito do ofício de recompor uma nação, dotar-lhe do traço comum, avivar-lhe a memória. Ele aviva a sua removendo o suor da testa, depressa para o pano não toldar a sonoridade do canto; também usa um colar, duas enfiadas com contas de couro; o traço distingue-o dos outros.
Tem dez filhos, ele. Nenhum se mostra no desfile, e todos o seguem misturando-se ao povo nas calçadas.
Na rua Direita, o palanque fora erguido em frente à prefeitura; é uma rua larga, a vitrine dos mais de quatrocentos anos de Goiana. O locutor anuncia a chegada das Pretinhas. Há pouca gente. Anuncia secretários, prefeito; com pompa na voz, não conhece a história do bloco, sua síntese com cultos iorubanos; refere-se a Heleno, o negro fundador da nação Pretinhas do Congo. Tem afetação na voz, fala descombinando-se do feitio despojado de Valdo, de dona Biu, da porta-estandarte que, a sós com ele, vexar-se-ia. Cinco horas, fim da tarde, a nação se desfaz. Valdo mantém-se à frente. Na terça viajam para se mostrarem noutro município. Descem para o baldo do rio, de onde vieram. Se não chover, haverá a lua para alumiar-lhes a seroada. Valdo tomará cachaça como chefe de uma nação que obteve o respeito do minguado povo que o aplaudiu. Ele, os filhos, dona Biu; e Quitéria, a porta-estandarte.
(*) Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.
A água do rio Goiana não refletiu as cores da bandeira d’As Pretinhas do Congo; não neste carnaval. Justo no ano em que o bloco conseguiu dois mil reais da Fundarpe, para mostrar sua devoção à iabá que a protege. Trinta negros, entre homens e mulheres, a maioria moços, usando roupas vermelhas e negras, puseram-se entre o rio e a casa. A bandeira, abrigada na sala, apoiada na parede feito um altar; a ponta, em cima, alcançou o telhado. Valdo, o pescador, pusera-a ali para, no culto ruidoso que faz em homenagem ao orixá, aumentar a força da divindade; sentir, ele, os benefícios no fundo do jereré içado do rio. Pusera-a antevendo siris, camarões, pitus, peixes miúdos. Fora tecelão o negro de 71 anos. A fábrica fechou, faliu, ele virou pescador, forçou-se dentro de uma canoa, no manejo do remo, inda que a usina tenha tingido a água com a calda da cana.
Ele grita com as moças que chegam atrasadas, grita e tira do bolso uma bisnaga com perfume, o extrato comprado na feira; espirra-o nas costas, no pescoço de cada uma. Às quatro da tarde, o cheiro do azedo massapê, vindo do canavial, ainda invade o casario. As negras, perfumadas, não sentem mais a calda que mata o cundunda; magras, esquecem a fome; montadas em cambitos, com força para se espremerem na rua estreita, de ladeira de subida. Há uma grávida, de rosto amarelo, os dentes expondo a alegria; a prenhez inchou-a nas pernas; ouvirá aplauso e ninguém para fazer pouco de seu rosto impaludado.
- Todo mundo em forma! – grita Valdo.
O rosto do negro é tisnado de sinais sob os olhos; o chapéu de feltro, preto, é o mesmo que usa o ano inteiro; camisa vermelha, calça preta, combinando com o traje das moças.
Valdo passa o ano sem gritar. No domingo de carnaval, desde o distante ano 51, grita feito um capitão-do-mato. Não foi escravo, mas o pai por certo fora vergastado pelo capitão do banguê.
- Vixe...! Seu Valdo tá é estressado! – diz a moça que segura a bandeira.
É uma negra com dezessete anos; veste-se como as outras; no penteado, dividira os cabelos no meio da cabeça, curvando-o para cima, para os lados, endurecendo-o com o laquê. No aplauso, não terá ninguém para fazer pouco do artifício na cabeça crescida pelos cabelos. É nova no estandarte, não sabe que está escrito 1936, o ano da fundação; sabe que carrega o distintivo de sua raça, do que assuntaram na seroada da calçada, olhando a cumplicidade muda do rio. Sabe que a bandeira é verde, vermelha, tem letras amarelas e listras brancas, como um dia será sua rotina cinzenta.
Trrrrrrr... Valdo trina o apito; ele mesmo puxa o canto. Não é um frevo, lembra um samba de feitio primitivo, de quem se orgulha de ter posto a nação para o povo apreciar.
“Quem disse que as Pretinhas não saía...” – Não é um tropeço na concordância, é uma minúcia que dá conta do paradeiro do autor; acomoda-se aos rostos magros, à frouxura das roupas; minúcia plástica.
A nação põe-se a andar, sem olhar para o aumento das águas com as últimas chuvas. A vegetação vinda da camboa longe dá sinal de que há vida no rio; menos mal. Algum dia não haverá despejo de calda.
As negras repetem o canto. Dona Biu chegou por último, levantando a barra da saia para não embeber-se nas poças. É a única que usa blusa e saia brancas, prateadas. Põe-se atrás do rei e da rainha. Vende fumo num banco de feira, usa-o no seu cachimbo bronco, mesmo no desfile da nação; só tira-o da boca quando repete o canto, segurando-o com a mão levantada, perto da boca. É a mais velha. O capitão-do-mato não a repreende, ele mesmo um useiro do fumo de rolo.
Pulam, dançam. O capitão não se permite um pulo. Respeitam-no porque seu passo é de comando. O rei e a rainha, de amarelo, não dançam; andam ouvindo a corte sacudindo o maracá, balançando o colar branco, o turbante da mesma cor. Não reparam no cortejo, posto que os súditos, reverentes, já os têm sob cuidados.
O pano branco sobre o ombro de Valdo não compõe o personagem, inda que não seja estranho a ele nem à corte. Não o mostra como uma prerrogativa, pendura-o como um direito do ofício de recompor uma nação, dotar-lhe do traço comum, avivar-lhe a memória. Ele aviva a sua removendo o suor da testa, depressa para o pano não toldar a sonoridade do canto; também usa um colar, duas enfiadas com contas de couro; o traço distingue-o dos outros.
Tem dez filhos, ele. Nenhum se mostra no desfile, e todos o seguem misturando-se ao povo nas calçadas.
Na rua Direita, o palanque fora erguido em frente à prefeitura; é uma rua larga, a vitrine dos mais de quatrocentos anos de Goiana. O locutor anuncia a chegada das Pretinhas. Há pouca gente. Anuncia secretários, prefeito; com pompa na voz, não conhece a história do bloco, sua síntese com cultos iorubanos; refere-se a Heleno, o negro fundador da nação Pretinhas do Congo. Tem afetação na voz, fala descombinando-se do feitio despojado de Valdo, de dona Biu, da porta-estandarte que, a sós com ele, vexar-se-ia. Cinco horas, fim da tarde, a nação se desfaz. Valdo mantém-se à frente. Na terça viajam para se mostrarem noutro município. Descem para o baldo do rio, de onde vieram. Se não chover, haverá a lua para alumiar-lhes a seroada. Valdo tomará cachaça como chefe de uma nação que obteve o respeito do minguado povo que o aplaudiu. Ele, os filhos, dona Biu; e Quitéria, a porta-estandarte.
(*) Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Demasiado humano, por Marcelo Sguassábia
Marcelo Sguassábia (*)
Atlas levava o mundo nas costas, e eu inadvertidamente acabei me transformando na versão atualizada do personagem mitológico. A diferença é que Atlas não tinha cobrança, nem a mídia no encalço, nem uma crise que pegou o atlas – desta vez geográfico – inteiro no contrapé. Tudo bem, eu quis que fosse assim, eu escolhi esse objetivo e exauri as forças que tinha e as que não tinha para alcançá-lo. Fiz acordos, abri concessões, renunciei a mim para ser o que agora sou.
Como eu já imaginava, é mesmo muito solitário ser tão absurdamente poderoso. Solitário a ponto de você não se conceder o direito de pensar um pouquinho com seus botões sem que de imediato apareça um arsenal de costureiras para pregá-los.
A uma entidade messiânica como eu não se dá a prerrogativa de estar a sós com quem quer que seja, nem comigo mesmo. Esta é a questão, ou talvez a contradição: a solidão do poder é tamanha que não abre a possibilidade de se ficar sozinho, nem para ir ao banheiro. Você é isolado do cotidiano feito um vírus no laboratório, mas junto com 150 cientistas que não tiram o olho do tubo de ensaio.
Sou o ícone de uma sociedade que não admite que eu me socialize espontaneamente e seja simplesmente um homem de bem, vacinado, protestante e pagador dos meus impostos. Imagino que haja milhares de pessoas pelos quatro cantos do planeta rezando neste momento pelos meus futuros atos. Só eu não posso ter carne e osso e pedir por mim – alguém certamente estará na escuta, ainda que seja inaudível a prece.
Eu posso criar e destruir fronteiras com a mesma caneta que, se dependesse de mim, estaria agora fazendo palavras cruzadas, o jogo da velha ou qualquer outra bobagem que não me forçasse a mudar a vida de ninguém. Confesso que durante o pronunciamento de ontem, enquanto falava solene e pausadamente para a câmera, tinha a mão direita dentro da gaveta de minha mesa. Segurava firme a foto em que estou no colo de mamãe, era uma maneira de me sentir forte, como se o retrato fosse uma âncora a me salvaguardar no mar intempestivo.
Sou um emblema, um deus de ébano pretensamente redentor dos males da humanidade, e transformei a rotina anônima e sem ostentação de minha mulher e de minhas filhas no filé dos paparazzi. Abro meu laptop e tenho vontade de deletar sem ler, como se fosse spam, o mais recente relatório confidencial enviado pelo Secretário de Defesa.
Queria muito, como todo americano praticante de golfe e comedor de pasta de amendoim, jogar paciência durante o expediente sem ser visto pelo chefe. Pois juro, como jurei sobre a Bíblia outro dia, que meu sonho de supremo mandatário é ter um chefe a quem seja obrigado a prestar contas de meia em meia hora, que perca as estribeiras comigo, que me xingue de incompetente e corpo-mole, mas que pertença a uma instância superior à minha e me diga o que deve e o que não deve ser feito. Estar no topo do organograma pode muito bem ser pior que estar abaixo da linha de miséria. Náuseas de tudo e ânsia de ser Barack, e só Barack de novo.
(*) Redator publicitário há mais de 20 anos, cronista de várias revistas eletrônicas, entre as quais a “Paradoxo”
Atlas levava o mundo nas costas, e eu inadvertidamente acabei me transformando na versão atualizada do personagem mitológico. A diferença é que Atlas não tinha cobrança, nem a mídia no encalço, nem uma crise que pegou o atlas – desta vez geográfico – inteiro no contrapé. Tudo bem, eu quis que fosse assim, eu escolhi esse objetivo e exauri as forças que tinha e as que não tinha para alcançá-lo. Fiz acordos, abri concessões, renunciei a mim para ser o que agora sou.
Como eu já imaginava, é mesmo muito solitário ser tão absurdamente poderoso. Solitário a ponto de você não se conceder o direito de pensar um pouquinho com seus botões sem que de imediato apareça um arsenal de costureiras para pregá-los.
A uma entidade messiânica como eu não se dá a prerrogativa de estar a sós com quem quer que seja, nem comigo mesmo. Esta é a questão, ou talvez a contradição: a solidão do poder é tamanha que não abre a possibilidade de se ficar sozinho, nem para ir ao banheiro. Você é isolado do cotidiano feito um vírus no laboratório, mas junto com 150 cientistas que não tiram o olho do tubo de ensaio.
Sou o ícone de uma sociedade que não admite que eu me socialize espontaneamente e seja simplesmente um homem de bem, vacinado, protestante e pagador dos meus impostos. Imagino que haja milhares de pessoas pelos quatro cantos do planeta rezando neste momento pelos meus futuros atos. Só eu não posso ter carne e osso e pedir por mim – alguém certamente estará na escuta, ainda que seja inaudível a prece.
Eu posso criar e destruir fronteiras com a mesma caneta que, se dependesse de mim, estaria agora fazendo palavras cruzadas, o jogo da velha ou qualquer outra bobagem que não me forçasse a mudar a vida de ninguém. Confesso que durante o pronunciamento de ontem, enquanto falava solene e pausadamente para a câmera, tinha a mão direita dentro da gaveta de minha mesa. Segurava firme a foto em que estou no colo de mamãe, era uma maneira de me sentir forte, como se o retrato fosse uma âncora a me salvaguardar no mar intempestivo.
Sou um emblema, um deus de ébano pretensamente redentor dos males da humanidade, e transformei a rotina anônima e sem ostentação de minha mulher e de minhas filhas no filé dos paparazzi. Abro meu laptop e tenho vontade de deletar sem ler, como se fosse spam, o mais recente relatório confidencial enviado pelo Secretário de Defesa.
Queria muito, como todo americano praticante de golfe e comedor de pasta de amendoim, jogar paciência durante o expediente sem ser visto pelo chefe. Pois juro, como jurei sobre a Bíblia outro dia, que meu sonho de supremo mandatário é ter um chefe a quem seja obrigado a prestar contas de meia em meia hora, que perca as estribeiras comigo, que me xingue de incompetente e corpo-mole, mas que pertença a uma instância superior à minha e me diga o que deve e o que não deve ser feito. Estar no topo do organograma pode muito bem ser pior que estar abaixo da linha de miséria. Náuseas de tudo e ânsia de ser Barack, e só Barack de novo.
(*) Redator publicitário há mais de 20 anos, cronista de várias revistas eletrônicas, entre as quais a “Paradoxo”
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Despiste, por Rodrigo Ramazzini
Rodrigo Ramazzini (*)
- Alô...
- Oi amor!
- Pode falar agora, Carlos Alberto?
- Ai ai ai! Com esse tom de voz, estou vendo tudo... O que foi dessa vez, Renata?
- Precisamos conversar.
- Fala...
- Pessoalmente é melhor.
- Sobre o que seria? Qual assunto?
- O de sempre: nós! Nossa relação...
- Mais especificamente?
- Já disse! É melhor pessoalmente.
- Espera eu chegar em casa e conversamos. Pode ser?
- Não! Não quero discutir na frente das crianças... Vamos a outro lugar.
- Quem disse que vamos discutir?
- Com certeza vamos, Carlos Alberto!
- Não sei! A coisa é tão séria assim?
- Pode acreditar que sim!
- Me adianta o assunto pelo menos... O motivo...
- Tanto faz tu saberes agora ou não, Carlos Alberto! A tua atitude será como nas anteriores: negar! Negar! E negar mais uma vez! Mas dessa vez vai ser diferente...
- Ah, não! Meu Deus! Eu não acredito! É o que estou pensando?
- A consciência já pesou foi?
- Essa história de novo, Renata?
- Não falei! Já começou a negar...
- Renata! Quantas vezes... Putz! Quantas vezes eu já te disse que não tenho uma amante, hein?
- Desta vez te viram saindo do motel, Carlos Alberto!
- Me viram! Quem? Posso saber?
- Lógico que eu não vou dizer!
- Está mentindo, Renata!
- Não me irrita, Carlos Alberto! Não me irrita mais do que eu já estou... Estou louca para voar nesta tua cara!
- Calma! Como vamos sair para conversar contigo nervosa deste jeito?
- Está certo! Está certo! Por incrível que pareça...
- Mas eu não tenho uma amante, viu?
- Depois nós conversamos sobre isso, Carlos Alberto! Eu não vou me alongar mais nessa ligação... Me encontre naquele restaurante perto da praça central depois das nove. Pode ser? Já avisei a empregada para ficar com as crianças...
- Pode ser! Eu vou ficar um pouco mais tarde aqui na empresa mesmo. Daí irei direto pra lá...
- Combinado então! Até lá. Tchau!
- Tchau!
Encerrada a ligação, Carlos Alberto no escritório comenta com um colega:
- Renata no telefone. Desconfiada de novo que tenho uma amante. Ciumenta que só ela! Vamos conversar em um restaurante depois do expediente. Mas com certeza vai ser igual as outras vezes. Conversamos um tempo e acabamos na cama. Por incrível que pareça, nestas crises de ciúmes é que me sinto amado!
- Com amante! Logo tu, Carlos Alberto? Sério desse jeito... Se fosse eu tudo bem! Mas tu não!
- Pois é, meu amigo! Mulheres! Quem entende...
Simultaneamente, Renata no carro com o amante, verifica as horas e diz:
- Pronto! Temos até ás 21h...
(*) Jornalista e cronista
- Alô...
- Oi amor!
- Pode falar agora, Carlos Alberto?
- Ai ai ai! Com esse tom de voz, estou vendo tudo... O que foi dessa vez, Renata?
- Precisamos conversar.
- Fala...
- Pessoalmente é melhor.
- Sobre o que seria? Qual assunto?
- O de sempre: nós! Nossa relação...
- Mais especificamente?
- Já disse! É melhor pessoalmente.
- Espera eu chegar em casa e conversamos. Pode ser?
- Não! Não quero discutir na frente das crianças... Vamos a outro lugar.
- Quem disse que vamos discutir?
- Com certeza vamos, Carlos Alberto!
- Não sei! A coisa é tão séria assim?
- Pode acreditar que sim!
- Me adianta o assunto pelo menos... O motivo...
- Tanto faz tu saberes agora ou não, Carlos Alberto! A tua atitude será como nas anteriores: negar! Negar! E negar mais uma vez! Mas dessa vez vai ser diferente...
- Ah, não! Meu Deus! Eu não acredito! É o que estou pensando?
- A consciência já pesou foi?
- Essa história de novo, Renata?
- Não falei! Já começou a negar...
- Renata! Quantas vezes... Putz! Quantas vezes eu já te disse que não tenho uma amante, hein?
- Desta vez te viram saindo do motel, Carlos Alberto!
- Me viram! Quem? Posso saber?
- Lógico que eu não vou dizer!
- Está mentindo, Renata!
- Não me irrita, Carlos Alberto! Não me irrita mais do que eu já estou... Estou louca para voar nesta tua cara!
- Calma! Como vamos sair para conversar contigo nervosa deste jeito?
- Está certo! Está certo! Por incrível que pareça...
- Mas eu não tenho uma amante, viu?
- Depois nós conversamos sobre isso, Carlos Alberto! Eu não vou me alongar mais nessa ligação... Me encontre naquele restaurante perto da praça central depois das nove. Pode ser? Já avisei a empregada para ficar com as crianças...
- Pode ser! Eu vou ficar um pouco mais tarde aqui na empresa mesmo. Daí irei direto pra lá...
- Combinado então! Até lá. Tchau!
- Tchau!
Encerrada a ligação, Carlos Alberto no escritório comenta com um colega:
- Renata no telefone. Desconfiada de novo que tenho uma amante. Ciumenta que só ela! Vamos conversar em um restaurante depois do expediente. Mas com certeza vai ser igual as outras vezes. Conversamos um tempo e acabamos na cama. Por incrível que pareça, nestas crises de ciúmes é que me sinto amado!
- Com amante! Logo tu, Carlos Alberto? Sério desse jeito... Se fosse eu tudo bem! Mas tu não!
- Pois é, meu amigo! Mulheres! Quem entende...
Simultaneamente, Renata no carro com o amante, verifica as horas e diz:
- Pronto! Temos até ás 21h...
(*) Jornalista e cronista
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Amor em silêncio, por Fábio de Lima
Amor em silêncio, por Fábio de Lima
Fábio de Lima (*)
- Você só tem 19 anos.
- Isso agora é problema?!
- Não, não estou dizendo isso.
- Está dizendo o que, então?!
- Só penso que você pode namorar alguém da sua idade. Agora nossos 13 anos de diferença são perfeitamente contornáveis, mas, em nossa velhice, serei 13 anos mais velho que você, e isso será uma grande diferença.
- Você está querendo terminar nosso namoro e não está com coragem de dizer?! É isso?! Fala, Flávio!
- Não, não estou querendo terminar. Não é isso.
- É isso sim! Seja homem para assumir!
- Não, você está imaginando coisas.
- Não, não estou! Você que está fazendo rodeios para dizer algo que está claro! Você cansou da menininha, né?! Eu sabia que você uma hora ia cansar! Você sempre falou que beleza física para você não era o mais importante. O fato de eu ser jovem, bonita, te atraiu, mas agora só isso não basta, não é?!
- Érika, a gente viveu um relacionamento lindo. Ficamos juntos por três anos, mas agora a gente anda brigando por tudo. Não faz sentido isso, entenda!
- Eu sabia! Eu era mais nova e ainda boba! Então, você me usou e agora se cansou de mim! Me falaram que isso ia acontecer! Me falaram tantas vezes! Meu Deus, como fui idiota!
- Idiota você está sendo agora, Érika! A gente tem brigado tanto que eu já não tenho certeza se nos amamos. Como é possível amar e brigar tanto assim?!
- Eu te amo, Flávio! Eu te amo muito!
- Será?! Ou será que você acha que ama?! Você nunca conheceu um outro homem! Nesse momento eu sou tudo que você conhece e por isso sou o melhor, o mais encantador, o mais bonito...! Na sua cabeça eu sou o homem ideal! Mas, daqui algum tempo você pode nem lembrar que eu existo!
- Não, eu sempre vou te amar!
- Você não sabe!
- Sei sim! Tenho certeza!
- Você não tem certeza de nada, Érika!
- Tenho certeza, sim! Tenho certeza sim, Flávio! Eu não sou uma menininha idiota! Você quer me abandonar! Você deve já ter outra, não é mesmo?!
- Não dá para conversar com você, Érika! Chega! Estou saindo!
Flávio pegou o celular sobre a mesa, as chaves, a carteira, e saiu batendo a porta. Érika chorava compulsivamente caída ao sofá da sala – enquanto a TV alta servia desde o começo da briga para encobrir os sons da desesperança. Todos os familiares de Érika foram contra o inicio daquele relacionamento. Como podia uma garota de 16 anos namorar um homem de 29? Todos da família de Flávio também foram contra. Como podia um homem de 29 anos namorar uma garota de 16?
Flávio sempre teve certeza do amor por Érika e nunca deu ouvidos para os comentários alheios. Érika também amava Flávio e, mesmo sendo muito jovem, tinha certeza que ele era o homem de sua vida – o futuro pai de seus filhos. O casal viveu muito bem nos dois primeiros anos juntos. Aliás, deixaram de ser namorados para ser casados – dividirem o mesmo lar e dividirem, também, todos os planos de futuro. Mas os últimos meses não foram como os dois esperavam e as brigas se tornaram uma constante na vida do casal.
Então, depois de tudo, Érika, abandonada naquele apartamento, soluçava de tanto chorar e se sentia triste, magoada e usada. Flávio, perdido em seus pensamentos, caminhava em direção a casa de seus pais, sete quarteirões ao sul. Érika parecia desesperada. Flávio parecia muito triste. O céu ficava escuro naquela tarde de verão e a chuva se aproximava rápido. Érika caminhou até a sacada do apartamento e olhou o céu. Flávio atravessou a rua correndo e olhou o céu. Gritos desesperados ecoaram no prédio. Gritos desesperados ecoaram na rua. Érika e Flávio se encontraram no silêncio. E no silêncio eles sempre se amaram.
(*) Jornalista e escritor, ou “contador de histórias”, como prefere ser chamado. Está escrevendo seu primeiro romance, DOCE DESESPERO, com publicação (ainda!) em data incerta.
Fábio de Lima (*)
- Você só tem 19 anos.
- Isso agora é problema?!
- Não, não estou dizendo isso.
- Está dizendo o que, então?!
- Só penso que você pode namorar alguém da sua idade. Agora nossos 13 anos de diferença são perfeitamente contornáveis, mas, em nossa velhice, serei 13 anos mais velho que você, e isso será uma grande diferença.
- Você está querendo terminar nosso namoro e não está com coragem de dizer?! É isso?! Fala, Flávio!
- Não, não estou querendo terminar. Não é isso.
- É isso sim! Seja homem para assumir!
- Não, você está imaginando coisas.
- Não, não estou! Você que está fazendo rodeios para dizer algo que está claro! Você cansou da menininha, né?! Eu sabia que você uma hora ia cansar! Você sempre falou que beleza física para você não era o mais importante. O fato de eu ser jovem, bonita, te atraiu, mas agora só isso não basta, não é?!
- Érika, a gente viveu um relacionamento lindo. Ficamos juntos por três anos, mas agora a gente anda brigando por tudo. Não faz sentido isso, entenda!
- Eu sabia! Eu era mais nova e ainda boba! Então, você me usou e agora se cansou de mim! Me falaram que isso ia acontecer! Me falaram tantas vezes! Meu Deus, como fui idiota!
- Idiota você está sendo agora, Érika! A gente tem brigado tanto que eu já não tenho certeza se nos amamos. Como é possível amar e brigar tanto assim?!
- Eu te amo, Flávio! Eu te amo muito!
- Será?! Ou será que você acha que ama?! Você nunca conheceu um outro homem! Nesse momento eu sou tudo que você conhece e por isso sou o melhor, o mais encantador, o mais bonito...! Na sua cabeça eu sou o homem ideal! Mas, daqui algum tempo você pode nem lembrar que eu existo!
- Não, eu sempre vou te amar!
- Você não sabe!
- Sei sim! Tenho certeza!
- Você não tem certeza de nada, Érika!
- Tenho certeza, sim! Tenho certeza sim, Flávio! Eu não sou uma menininha idiota! Você quer me abandonar! Você deve já ter outra, não é mesmo?!
- Não dá para conversar com você, Érika! Chega! Estou saindo!
Flávio pegou o celular sobre a mesa, as chaves, a carteira, e saiu batendo a porta. Érika chorava compulsivamente caída ao sofá da sala – enquanto a TV alta servia desde o começo da briga para encobrir os sons da desesperança. Todos os familiares de Érika foram contra o inicio daquele relacionamento. Como podia uma garota de 16 anos namorar um homem de 29? Todos da família de Flávio também foram contra. Como podia um homem de 29 anos namorar uma garota de 16?
Flávio sempre teve certeza do amor por Érika e nunca deu ouvidos para os comentários alheios. Érika também amava Flávio e, mesmo sendo muito jovem, tinha certeza que ele era o homem de sua vida – o futuro pai de seus filhos. O casal viveu muito bem nos dois primeiros anos juntos. Aliás, deixaram de ser namorados para ser casados – dividirem o mesmo lar e dividirem, também, todos os planos de futuro. Mas os últimos meses não foram como os dois esperavam e as brigas se tornaram uma constante na vida do casal.
Então, depois de tudo, Érika, abandonada naquele apartamento, soluçava de tanto chorar e se sentia triste, magoada e usada. Flávio, perdido em seus pensamentos, caminhava em direção a casa de seus pais, sete quarteirões ao sul. Érika parecia desesperada. Flávio parecia muito triste. O céu ficava escuro naquela tarde de verão e a chuva se aproximava rápido. Érika caminhou até a sacada do apartamento e olhou o céu. Flávio atravessou a rua correndo e olhou o céu. Gritos desesperados ecoaram no prédio. Gritos desesperados ecoaram na rua. Érika e Flávio se encontraram no silêncio. E no silêncio eles sempre se amaram.
(*) Jornalista e escritor, ou “contador de histórias”, como prefere ser chamado. Está escrevendo seu primeiro romance, DOCE DESESPERO, com publicação (ainda!) em data incerta.
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009
Sensível diferença, por Sayonara Lino
Sayonara Lino (*)
Acordei e iniciei um dia como tantos outros. Senti frio, ventava um pouco, uma leve brisa. Caminhei em direção à sacada de meu apartamento, com o intuito de absorver os raros raios de sol que teimam em surgir vez ou outra.
Ao chegar lá, observei, a uma certa distância, o apê que fica em frente ao meu. Aquilo sim pode ser chamado de lar, se minha intuição estiver correta. O belo casal havia chegado recentemente ao condomínio. Em clima de romance, desfrutava de um farto desjejum, ao lado de uma linda planta que cobria parcialmente o ambiente, agregando um ar bucólico em meio ao concreto.
Havia orquídeas que conferiam zelo àquela mesa repleta de guloseimas, àquele café pretinho, enfim, uma composição perfeita para entrar em harmonia com o cosmos. Ele colocava pequenos nacos de queijo Minas em sua boca. Ela retribuía o gesto com sorrisos e gracejos, mexendo em seus longos cabelos para lá de escorridos. Ambos estavam em uma sintonia invejável, exalando uma química explosiva!
Perdida em meio a pensamentos de admiração, meu olfato me capturou e fui obrigada a encarar minha realidade. Um cheiro ruim e familiar contaminava o ambiente. Era a massa marrom e cotidiana que saiu de minha cachorrinha hiperativa com sintomas esquizo-afetivos. Do quarto, minha mãe com seu costumeiro mau-humor, chamou-me para que eu levasse seus remédios. E enfatizou: “vê se Nick fez alguma coisa por aí, principalmente na sala, é muito chato os vizinhos virem”. Necessidade de aprovação alheia, ela não perde essa mania.
Tive vontade de chorar. Por que será que o destino não me presenteou com o uma cadelinha felpuda de bons modos, o homem quase irreal de tão gentil, os cabelos lisos e esvoaçantes da bela moça que desfrutava um momento tão agradável? Seria Karma? Não, são as escolhas. Não procurei saber se a raça da minha cadelinha fofa e anti-social se adaptaria a um espaço restrito e se seria fácil educá-la. Talvez um sítio fosse melhor para ela ficar mais à vontade. Quanto ao homem dos sonhos, melhor cair na real. Eles costumam te acordar com afagos mas à noite roncam e viram para o outro lado. Já a bela cabeleira da moça, bem, não se pode lutar contra o determinismo genético. Ela teve sorte. Então, aceite seus cachos ou corra para o salão mais próximo: com o advento da escova progressiva, sua franja não irá arrepiar e você poderá, enfim, sacudir suas melenas ao vento.
(*) Jornalista.
Acordei e iniciei um dia como tantos outros. Senti frio, ventava um pouco, uma leve brisa. Caminhei em direção à sacada de meu apartamento, com o intuito de absorver os raros raios de sol que teimam em surgir vez ou outra.
Ao chegar lá, observei, a uma certa distância, o apê que fica em frente ao meu. Aquilo sim pode ser chamado de lar, se minha intuição estiver correta. O belo casal havia chegado recentemente ao condomínio. Em clima de romance, desfrutava de um farto desjejum, ao lado de uma linda planta que cobria parcialmente o ambiente, agregando um ar bucólico em meio ao concreto.
Havia orquídeas que conferiam zelo àquela mesa repleta de guloseimas, àquele café pretinho, enfim, uma composição perfeita para entrar em harmonia com o cosmos. Ele colocava pequenos nacos de queijo Minas em sua boca. Ela retribuía o gesto com sorrisos e gracejos, mexendo em seus longos cabelos para lá de escorridos. Ambos estavam em uma sintonia invejável, exalando uma química explosiva!
Perdida em meio a pensamentos de admiração, meu olfato me capturou e fui obrigada a encarar minha realidade. Um cheiro ruim e familiar contaminava o ambiente. Era a massa marrom e cotidiana que saiu de minha cachorrinha hiperativa com sintomas esquizo-afetivos. Do quarto, minha mãe com seu costumeiro mau-humor, chamou-me para que eu levasse seus remédios. E enfatizou: “vê se Nick fez alguma coisa por aí, principalmente na sala, é muito chato os vizinhos virem”. Necessidade de aprovação alheia, ela não perde essa mania.
Tive vontade de chorar. Por que será que o destino não me presenteou com o uma cadelinha felpuda de bons modos, o homem quase irreal de tão gentil, os cabelos lisos e esvoaçantes da bela moça que desfrutava um momento tão agradável? Seria Karma? Não, são as escolhas. Não procurei saber se a raça da minha cadelinha fofa e anti-social se adaptaria a um espaço restrito e se seria fácil educá-la. Talvez um sítio fosse melhor para ela ficar mais à vontade. Quanto ao homem dos sonhos, melhor cair na real. Eles costumam te acordar com afagos mas à noite roncam e viram para o outro lado. Já a bela cabeleira da moça, bem, não se pode lutar contra o determinismo genético. Ela teve sorte. Então, aceite seus cachos ou corra para o salão mais próximo: com o advento da escova progressiva, sua franja não irá arrepiar e você poderá, enfim, sacudir suas melenas ao vento.
(*) Jornalista.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
O Amor e a incógnita, por Silvana Alves
Silvana Alves (*)
Ah, o amor... quatro letras e “zilhões” de incógnitas.
Parada olhando para a imensidão azul do céu tento decifrá-lo, mas não consigo. Com minha santa ingenuidade fico pensando; do que é feito o amor? Porque os amores se acabam e ficamos com outros “zilhões” de questionamentos?
Perguntei para as nuvens, que mais pareciam um monte de algodão branco e doce, prontos para derreter em minha boca. Mas as respostas não vieram, e mais uma vez fiquei decepcionada com tamanha falta de consideração daquelas nuvens que tanto admiro.
Então fui a algo concreto, olhei o dicionário, que para muitos é considerado “o pai dos burros”. Se realmente for eu sou totalmente uma. Mas, acredito que um dicionário é o pai da inteligência sábia e simples. Entre tantas descrições sobre as palavras fiquei com a que mais senti intimidade.
AMOR: Sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro ser ou a uma coisa. INCÓGNITA: Aquilo que é desconhecido e se procura saber. Meu Deus! – exclamei – O amor é uma incógnita?! Claro que a resposta não veio. Mas, comecei a lembrar dos meus amores passados. Todos se acabaram seja por falta da sinceridade, confiança, até mesmo do amor, ou porque ele teve que partir.
Aí pensei: “O AMOR é tão bom!” É tão bom amar e ser amada! Mas ainda desconheço o por quê eles se vão ou acabam. Então constatei que o amor é uma incógnita. Ele não tem explicação. Nem mesmo os dicionários escritos em todas as línguas podem explicar. Porque a explicação é superficial. E o amor é sentimento, é doçura, é mistério.... é uma incógnita maravilhosamente gostosa de sentir e ter.
(*) Estudante do 4º ano de Jornalismo das Faculdades Integradas Teresa D'Ávilla (FATEA), de Lorena-SP. Blogueira: www.silvanacasalves.blogspot.com
Ah, o amor... quatro letras e “zilhões” de incógnitas.
Parada olhando para a imensidão azul do céu tento decifrá-lo, mas não consigo. Com minha santa ingenuidade fico pensando; do que é feito o amor? Porque os amores se acabam e ficamos com outros “zilhões” de questionamentos?
Perguntei para as nuvens, que mais pareciam um monte de algodão branco e doce, prontos para derreter em minha boca. Mas as respostas não vieram, e mais uma vez fiquei decepcionada com tamanha falta de consideração daquelas nuvens que tanto admiro.
Então fui a algo concreto, olhei o dicionário, que para muitos é considerado “o pai dos burros”. Se realmente for eu sou totalmente uma. Mas, acredito que um dicionário é o pai da inteligência sábia e simples. Entre tantas descrições sobre as palavras fiquei com a que mais senti intimidade.
AMOR: Sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro ser ou a uma coisa. INCÓGNITA: Aquilo que é desconhecido e se procura saber. Meu Deus! – exclamei – O amor é uma incógnita?! Claro que a resposta não veio. Mas, comecei a lembrar dos meus amores passados. Todos se acabaram seja por falta da sinceridade, confiança, até mesmo do amor, ou porque ele teve que partir.
Aí pensei: “O AMOR é tão bom!” É tão bom amar e ser amada! Mas ainda desconheço o por quê eles se vão ou acabam. Então constatei que o amor é uma incógnita. Ele não tem explicação. Nem mesmo os dicionários escritos em todas as línguas podem explicar. Porque a explicação é superficial. E o amor é sentimento, é doçura, é mistério.... é uma incógnita maravilhosamente gostosa de sentir e ter.
(*) Estudante do 4º ano de Jornalismo das Faculdades Integradas Teresa D'Ávilla (FATEA), de Lorena-SP. Blogueira: www.silvanacasalves.blogspot.com
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