Gustavo do Carmo (*)
(Conto)
Na volta para casa decidi pegar o ônibus no ponto final. O abrigo estava lotado. Não tinha lugar para me sentar. Estava morrendo de cansaço. Não quis esperar em pé. Estava muito quente. Mesmo com o sol assando o meu couro cabeludo, preferi andar. Parado ele incide mais sobre a minha cabeça. Andando, pelo menos, vou uniformizando a fritura dos meus miolos.
No ponto final, além de poder ficar debaixo de uma marquise, poderia pegar o ônibus vazio, o que não aconteceria se eu pegasse de onde eu estava. Até a última parada ainda havia mais três pontos no caminho.
Inicio a minha jornada de vinte quilômetros rumo ao ponto final. Já conheço esse trajeto. Aliás, acho que nem chega a ter vinte quilômetros. Talvez cinco. O calor e o cansaço já bagunçam o meu raciocínio. As minhas contas.
Quando acabo de atravessar a primeira esquina, passa o ônibus que me leva de volta para casa. Passa direto, em alta velocidade. Sigo o meu caminho.
Passo por uma lanchonete. Pessoas comem sem pressa, como se vivessem ali. Eu também poderia parar para comer ou beber uma água de coco. Mas estava com pressa. Queria chegar logo em casa e me livrar daquele calor na minha cabeça.
Na segunda esquina vejo uma criança aparentando uns oito anos. Fazia manha. Chorava e esperneava. Provavelmente queria algum brinquedo. A mãe, impaciente, esbravejava:
— SE VOCÊ NÃO CALAR ESSA BOCA, EU TE DOU UMA SURRA!!!!
Pensei em parar em um abrigo próximo a cena. Gostaria de conferir se a mãe cumpriria a promessa. Muita gente torcia para isso. Algumas senhoras tentavam demovê-la da idéia. Se a mãe bateu ou não na criança? Não sei. Segui em frente.
Logo vi a loja de brinquedos que foi o pivô do escândalo da criança. Os funcionários ainda observavam na porta, atônitos. Poderia parar para perguntar-lhes o que houve. Mas isso não era da minha conta. Segui.
A partir da terceira esquina, avistei outro ônibus da minha linha. Acabei voltando para o ponto próximo de onde a mãe ameaçava bater na criança. Não havia ninguém no abrigo além da mulher e do menino que chorava. Parecia mais calmo. Nem sei se tinha levado a tal surra ou não. Para mim não importava. O ônibus que eu precisava chegou. Mas não parou. Eu estava no ponto errado. Continuei o meu caminho.
Repeti a passagem pela loja de brinquedos e a terceira esquina, onde eu tinha avistado aquele ônibus que me fez voltar. Continuei o caminho.
Na frente de um banco vejo um mendigo abaixar as calças e, com a apoteose apontada para quem quisesse olhar, fazia o que os políticos fazem com a nossa cidade, o nosso estado. Nosso país.
Mais pra frente, um vendedor de relógios abria o seu casaco e me oferecia as suas mercadorias, que brilhavam com a luz do sol. Eu nem dei importância. Também não reparei que ele estava nu. A mocinha de trás percebeu. Deu um grito e chamou a polícia aos berros de TARADO!! O policial militar desceu o cassetete no ambulante maluco. Já sem o meu testemunho. Eu estava longe.
Olho para outra calçada e vejo um turista fotografar um mendigo. É por isso que o Brasil não vai pra frente. As nossas mazelas são glamurizadas. Me deu vontade de atravessar a rua e mostrar para o turista a verdadeira maravilhas do Rio de Janeiro que estavam na rua paralela: a praia. Fiquei na minha. Segui o meu caminho.
Duas esquinas depois eu vi uma multidão cercando alguém ou alguma coisa. Dando mais alguns passos, deu para ver um homem caído no chão. O sangue se empoçava e escorria pelo asfalto quente. Nem quis saber se estava morto ou não. Continuei andando.
Já estava a umas três esquinas do ponto final quando avisto outro ônibus parado no semáforo logo no final da calçada. Atravesso rapidamente com o sinal aberto. Quase sou atropelado. Não dá tempo. O semáforo abriu e o ônibus seguiu o seu caminho. E eu o meu.
Passo por uma senhora com o rosto ensangüentado, chorando, dizendo para policiais que foi assaltada. Na esquina seguinte, ouço tiros. Parece ser um assalto. Fico com medo. Paro numa lanchonete e compro um refrigerante. Com a cara e a coragem, sigo em frente. Ando a passos rápidos. Apesar do meu cansaço. Dois ladrões quase me empurram e entram na rua transversal. Os policiais, também. Era um assalto no supermercado do outro lado da rua.
Consigo fugir das balas perdidas. Consigo chegar ao ponto final. Não consegui pegar o ônibus que estava parado, me esperando. Algo pesado caiu sobre mim. Pesado como uma marquise.
(*) Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos” pela Editora Multifoco/Selo Redondezas - RJ. Seu blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores.
sexta-feira, 14 de novembro de 2008
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Preparando o terreno, por Rodrigo Ramazzini
Rodrigo Ramazzini (*)
- Alô, amor?
- Oi meu bem!
- Podes falar?
- Posso. Fala...
- Estou te ligando para dizer... Para dizer que estou com saudade!
- Também estou, amor! Eu sei que tenho trabalhado muito nestes últimos meses e não tenho te dado a devida atenção!
- Pois é... Tu vais vir cedo para casa?
- Hoje, por incrível que pareça, irei sim! Daqui a pouco. Por quê?
- Estava pensado em fazermos uma noite especial. Uma noite romântica. O que achas?
- Ótima idéia! Quer ir a qual restaurante? Depois a um...
- Não! Eu mesma vou preparar a nossa comidinha. Na nossa casinha... Vou fazer o seu prato predileto.
- Sei! Não quer sair mesmo? Olha lá...
- Não mesmo! Vou comprar o teu vinho preferido...
- Que beleza! Mas não vai dar muito trabalho, Eduarda?
- Trabalho nenhum, meu amor! Por ti eu faço qualquer coisa.
- Que bom! Nos falamos depois então...
- Não! Quer dizer sim! Mas deixa eu te dizer mais uma coisa antes...
- Fala.
- Acho que aquele lingerie que encomendei, do catálogo que te mostrei outro dia, chega hoje...
- Uuuh... Já vi que o meu benzinho está quente hoje.
- Isso mesmo! Como diz a música: pode vir quente que estou fervendo!
- Ah ah ah! Sua safadinha! Cheia de más intenções.
- Ou melhor, boas-intenções, meu amor!
- É verdade!
- E tem mais...
- Tem mais é?
- Sim! Hoje, vou fazer aquilo que tanto me pedias.
- Oba! Até que enfim cedes aos meus apelos. Essa noite vai ser ótima! Já estou louco para ir pra casa...
- Calma, seu assanhado!
- Meu bem, preciso desligar. Estão me chamando para uma reunião.
- Tudo bem, meu amor! Mas só deixa eu te falar uma última coisa...
- Fala! Sou todos ouvidos...
- É que estou com um probleminha...
- O que foi meu bem? Qual o problema? Podes falar. Ah! Antes que eu esqueça, tu podes passar aqui na empresa e me pegar às 18h?
- Pois é, meu amor! Justamente esse é o probleminha que eu tinha para te falar... É que... É que... Acabei de bater com o nosso carro! Pronto! Falei... Estou bem, não te preocupes, mas o carro... Mas o carro amassou um pouquinho...
- EDUARDA!
(*) Jornalista e cronista
- Alô, amor?
- Oi meu bem!
- Podes falar?
- Posso. Fala...
- Estou te ligando para dizer... Para dizer que estou com saudade!
- Também estou, amor! Eu sei que tenho trabalhado muito nestes últimos meses e não tenho te dado a devida atenção!
- Pois é... Tu vais vir cedo para casa?
- Hoje, por incrível que pareça, irei sim! Daqui a pouco. Por quê?
- Estava pensado em fazermos uma noite especial. Uma noite romântica. O que achas?
- Ótima idéia! Quer ir a qual restaurante? Depois a um...
- Não! Eu mesma vou preparar a nossa comidinha. Na nossa casinha... Vou fazer o seu prato predileto.
- Sei! Não quer sair mesmo? Olha lá...
- Não mesmo! Vou comprar o teu vinho preferido...
- Que beleza! Mas não vai dar muito trabalho, Eduarda?
- Trabalho nenhum, meu amor! Por ti eu faço qualquer coisa.
- Que bom! Nos falamos depois então...
- Não! Quer dizer sim! Mas deixa eu te dizer mais uma coisa antes...
- Fala.
- Acho que aquele lingerie que encomendei, do catálogo que te mostrei outro dia, chega hoje...
- Uuuh... Já vi que o meu benzinho está quente hoje.
- Isso mesmo! Como diz a música: pode vir quente que estou fervendo!
- Ah ah ah! Sua safadinha! Cheia de más intenções.
- Ou melhor, boas-intenções, meu amor!
- É verdade!
- E tem mais...
- Tem mais é?
- Sim! Hoje, vou fazer aquilo que tanto me pedias.
- Oba! Até que enfim cedes aos meus apelos. Essa noite vai ser ótima! Já estou louco para ir pra casa...
- Calma, seu assanhado!
- Meu bem, preciso desligar. Estão me chamando para uma reunião.
- Tudo bem, meu amor! Mas só deixa eu te falar uma última coisa...
- Fala! Sou todos ouvidos...
- É que estou com um probleminha...
- O que foi meu bem? Qual o problema? Podes falar. Ah! Antes que eu esqueça, tu podes passar aqui na empresa e me pegar às 18h?
- Pois é, meu amor! Justamente esse é o probleminha que eu tinha para te falar... É que... É que... Acabei de bater com o nosso carro! Pronto! Falei... Estou bem, não te preocupes, mas o carro... Mas o carro amassou um pouquinho...
- EDUARDA!
(*) Jornalista e cronista
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Festa surpresa, por Celamar Maione
Celamar Maione (*)
Sexta-feira, sete da manhã. Marielza acordou Salustiano com um beijo festivo.
- Parabéns pra você, nesta data querida!
- E eu lá tenho motivo para comemorar alguma coisa?
- Nossa, homem, que baixo astral! Hoje é seu aniversário! Toma, abre o presente.
- Cueca nova!
- Gostou?
- É uma coisa que a gente sempre precisa, né?
Deu um sorriso apertado, saiu da cama e foi tomar banho para ir trabalhar. Tentando agradar o marido, Marielza caprichou no café. Salustiano saiu para a repartição mais animado. Em seguida, Marielza se arrumou e foi para o escritório. Antes, tocou a campanhia da vizinha e amiga Rosiele.
- Tudo certo para logo mais?
- Certíssimo! Fica tranqüila.
- Então vou deixar a chave lá de casa com você.
- Deixa sim. Eu adianto os preparativos. Bom trabalho.
Pegou o ônibus cantarolando. Trabalhou de bom-humor. Ás cinco em ponto bateu o cartão e foi pra casa. Encontrou Rosiele montando os arranjos e enfeitando a sala.
- Tá conseguindo encontrar tudo?
- Só tive dificuldade para achar os guardanapos, mas já estão na mesa.
- E o bolo?
- Em cima da geladeira.
Empolgadas, colocaram as cervejas e os refrigerantes no freezer. Montaram uma mesa com o bolo e os doces e deixaram os salgadinhos prontos para serem aquecidos no microondas. Às sete, em ponto, a mãe de Salustiano tocou a campanhia :
- Nossa, tô orgulhosa! Meu filho merece tudo isso?
- Isso e muito mais. A senhora sabe que amo seu filho.
Logo chegaram os irmãos, as cunhadas e os sobrinhos do aniversariante. Oito da noite, quando ele colocou a chave na porta, apagaram as luzes e fizeram silêncio. Assim que ele entrou, iluminaram a casa toda e cantaram parabéns. Salustiano empalideceu. Nos olhos, uma sombra de alegria e outra de preocupação. Marielza foi a primeira a abraçá-lo. Entre surpreso e preocupado falou baixinho no ouvido da esposa:
-Depois você vai me explicar que loucura é essa.
Ela deu uma risadinha e tentou disfarçar o constrangimento. Em seguida, a família rodeou Salustiano. Queiroz, o irmão mais velho, deu um tapa na barriga e gritou:
- E aí cunhadinha, sai ou não sai a loura gelada?
Rosiele ajudava Marielza a servir os convidados. A sogra, com um sorriso de mostar as gengivas, jogava com os pés, um salgadinho para debaixo do sofá e comentava, para disfarçar:
- Que vizinha maravilhosa é a Rosiele!
A família conversava animada enquanto mastigava com avidez. Só o aniversariante, em meio à alegria, demonstrava um estranho abatimento. Queiroz foi quem o tirou da prostração:
- E aí, Salu, desce ou não desce outra loira gelada?
Ensimesmado, Salustiano entrou na cozinha e encontrou Marielza e Rosiele cochichando. Pediu licença à vizinha e ficou a sós com a esposa. Levou-a para um canto da cozinha e desabafou o que carregava entalado na garganta.
- Você tá maluca de dar essa festa?! Nós estamos afundados em dívidas, devendo a banco e você me gasta dinheiro com festinha de aniversário?
- Deixa de ser mal-agradecido. Não está gostando?
- Como é que eu vou gostar sabendo que terei que pagar pelo seu delírio? Você quer me arruinar? Como a gente vai pagar isso?
- Não se preocupe. Deixa comigo.Já acertei tudo. Você não vai gastar nada.
- Você vendeu alguma coisa? Roubou? Sei lá. Fez alguma merda?
- Nada disso. Depois eu falo. Curte a festa.
- Não consigo. Minha cabeça está explodindo.
- Já disse, curte a festa, depois conversamos.
Queiroz entrou na cozinha gritando, interrompendo as lamúrias do irmão:
- Sai ou não sai mais uma gelada? Que festão hein? Depois diz que tá no fundo do poço!
Meia-noite em ponto, os convidados cantaram os parabéns. Marielza fez questão que a primeira fatia fosse a dela. Saindo pedaço de bolo pelos cantos da boca, Queiroz comentava, com ares de inveja:
- A Carminha nunca fez uma festa surpresa pra mim! Que se dane minha glicose alta. Esse bolo de chocolate tá uma delícia!
Quase uma da madrugada, os convidados se foram, empanzinados. Rosiele piscou para Marielza:
- Amiga, vou ficar para ajudar na limpeza.
Trocaram um sorriso de cumplicidade. Marielza foi até o quarto, pegou uma bolsa, colocou a camisola e chamou o marido.
- Tranca a porta. Precisamos conversar . É importante.
Ele se sentou na beirada da cama, intrigado. Depois de conversarem, Salustiano, colocou a mão na cabeça, enquanto balançava a perna, nervoso:
- Você é maluca, Marielza. E se eu não concordar?
- Se você não concordar, vai ficar mais encalacrado ainda Escolhe.
- Mas isso é coisa que se faça?
- A Rosiele está sem homem há dois anos. Custa dar uma moral pra minha amiga?
- Mas logo eu?! O que é que eu faço agora?
- Até parece que você não sabe. Se vira, queridinho. A festa foi um sucesso.
- E você? Vai pra onde?
- Durmo na casa dela. E olha, seja homem pelo menos pra isso. Não me decepcione.
Marielza foi embora, carregando um pratinho com doces e salgados. Antes de bater a porta, desejou boa sorte, falou para o marido usar a cueca nova e fez uma última recomendação:
- Comportem-se! Nove horas quero voltar pra casa e encontrar meu maridinho inteiro.
Sem escolha, Salustiano tomou um banho para relaxar. Enquanto a água escorria-lhe pelo corpo, pensou: “Até que a Rosiele é gostosinha. A Marielza é muito criativa!”
Foi pra sala só de cueca. Para suavizar o ambiente, colocou um CD de música romântica. Na cozinha, pegou a última garrafa de cerveja. Serviu. Beberam no mesmo copo. Excitado, apagou a luz e esticou as mãos tirando-a para dançar. Apertou-a contra o corpo e beijou-lhe a nuca. Ela correspondeu.
Enquanto Salustiano pagava a dívida, Marielza se deliciava com os doces, ouvindo música. Antes de dormir, suspirou, sonhadora, e sentiu orgulho de si mesma. A madrugada rompia no céu estrelado quando ela adormeceu com um sorriso no rosto.
(*) Radialista e jornalista, trabalhou como produtora, repórter e redatora nas Rádios Fm O DIA, Tropical e Rádio Globo. Foi Produtora-Executiva da Rádio Tupi. Lecionou Telemarketing, atendimento ao público e comportamento do Operador , mas sua paixão é escrever, notadamente poesias e contos.
Sexta-feira, sete da manhã. Marielza acordou Salustiano com um beijo festivo.
- Parabéns pra você, nesta data querida!
- E eu lá tenho motivo para comemorar alguma coisa?
- Nossa, homem, que baixo astral! Hoje é seu aniversário! Toma, abre o presente.
- Cueca nova!
- Gostou?
- É uma coisa que a gente sempre precisa, né?
Deu um sorriso apertado, saiu da cama e foi tomar banho para ir trabalhar. Tentando agradar o marido, Marielza caprichou no café. Salustiano saiu para a repartição mais animado. Em seguida, Marielza se arrumou e foi para o escritório. Antes, tocou a campanhia da vizinha e amiga Rosiele.
- Tudo certo para logo mais?
- Certíssimo! Fica tranqüila.
- Então vou deixar a chave lá de casa com você.
- Deixa sim. Eu adianto os preparativos. Bom trabalho.
Pegou o ônibus cantarolando. Trabalhou de bom-humor. Ás cinco em ponto bateu o cartão e foi pra casa. Encontrou Rosiele montando os arranjos e enfeitando a sala.
- Tá conseguindo encontrar tudo?
- Só tive dificuldade para achar os guardanapos, mas já estão na mesa.
- E o bolo?
- Em cima da geladeira.
Empolgadas, colocaram as cervejas e os refrigerantes no freezer. Montaram uma mesa com o bolo e os doces e deixaram os salgadinhos prontos para serem aquecidos no microondas. Às sete, em ponto, a mãe de Salustiano tocou a campanhia :
- Nossa, tô orgulhosa! Meu filho merece tudo isso?
- Isso e muito mais. A senhora sabe que amo seu filho.
Logo chegaram os irmãos, as cunhadas e os sobrinhos do aniversariante. Oito da noite, quando ele colocou a chave na porta, apagaram as luzes e fizeram silêncio. Assim que ele entrou, iluminaram a casa toda e cantaram parabéns. Salustiano empalideceu. Nos olhos, uma sombra de alegria e outra de preocupação. Marielza foi a primeira a abraçá-lo. Entre surpreso e preocupado falou baixinho no ouvido da esposa:
-Depois você vai me explicar que loucura é essa.
Ela deu uma risadinha e tentou disfarçar o constrangimento. Em seguida, a família rodeou Salustiano. Queiroz, o irmão mais velho, deu um tapa na barriga e gritou:
- E aí cunhadinha, sai ou não sai a loura gelada?
Rosiele ajudava Marielza a servir os convidados. A sogra, com um sorriso de mostar as gengivas, jogava com os pés, um salgadinho para debaixo do sofá e comentava, para disfarçar:
- Que vizinha maravilhosa é a Rosiele!
A família conversava animada enquanto mastigava com avidez. Só o aniversariante, em meio à alegria, demonstrava um estranho abatimento. Queiroz foi quem o tirou da prostração:
- E aí, Salu, desce ou não desce outra loira gelada?
Ensimesmado, Salustiano entrou na cozinha e encontrou Marielza e Rosiele cochichando. Pediu licença à vizinha e ficou a sós com a esposa. Levou-a para um canto da cozinha e desabafou o que carregava entalado na garganta.
- Você tá maluca de dar essa festa?! Nós estamos afundados em dívidas, devendo a banco e você me gasta dinheiro com festinha de aniversário?
- Deixa de ser mal-agradecido. Não está gostando?
- Como é que eu vou gostar sabendo que terei que pagar pelo seu delírio? Você quer me arruinar? Como a gente vai pagar isso?
- Não se preocupe. Deixa comigo.Já acertei tudo. Você não vai gastar nada.
- Você vendeu alguma coisa? Roubou? Sei lá. Fez alguma merda?
- Nada disso. Depois eu falo. Curte a festa.
- Não consigo. Minha cabeça está explodindo.
- Já disse, curte a festa, depois conversamos.
Queiroz entrou na cozinha gritando, interrompendo as lamúrias do irmão:
- Sai ou não sai mais uma gelada? Que festão hein? Depois diz que tá no fundo do poço!
Meia-noite em ponto, os convidados cantaram os parabéns. Marielza fez questão que a primeira fatia fosse a dela. Saindo pedaço de bolo pelos cantos da boca, Queiroz comentava, com ares de inveja:
- A Carminha nunca fez uma festa surpresa pra mim! Que se dane minha glicose alta. Esse bolo de chocolate tá uma delícia!
Quase uma da madrugada, os convidados se foram, empanzinados. Rosiele piscou para Marielza:
- Amiga, vou ficar para ajudar na limpeza.
Trocaram um sorriso de cumplicidade. Marielza foi até o quarto, pegou uma bolsa, colocou a camisola e chamou o marido.
- Tranca a porta. Precisamos conversar . É importante.
Ele se sentou na beirada da cama, intrigado. Depois de conversarem, Salustiano, colocou a mão na cabeça, enquanto balançava a perna, nervoso:
- Você é maluca, Marielza. E se eu não concordar?
- Se você não concordar, vai ficar mais encalacrado ainda Escolhe.
- Mas isso é coisa que se faça?
- A Rosiele está sem homem há dois anos. Custa dar uma moral pra minha amiga?
- Mas logo eu?! O que é que eu faço agora?
- Até parece que você não sabe. Se vira, queridinho. A festa foi um sucesso.
- E você? Vai pra onde?
- Durmo na casa dela. E olha, seja homem pelo menos pra isso. Não me decepcione.
Marielza foi embora, carregando um pratinho com doces e salgados. Antes de bater a porta, desejou boa sorte, falou para o marido usar a cueca nova e fez uma última recomendação:
- Comportem-se! Nove horas quero voltar pra casa e encontrar meu maridinho inteiro.
Sem escolha, Salustiano tomou um banho para relaxar. Enquanto a água escorria-lhe pelo corpo, pensou: “Até que a Rosiele é gostosinha. A Marielza é muito criativa!”
Foi pra sala só de cueca. Para suavizar o ambiente, colocou um CD de música romântica. Na cozinha, pegou a última garrafa de cerveja. Serviu. Beberam no mesmo copo. Excitado, apagou a luz e esticou as mãos tirando-a para dançar. Apertou-a contra o corpo e beijou-lhe a nuca. Ela correspondeu.
Enquanto Salustiano pagava a dívida, Marielza se deliciava com os doces, ouvindo música. Antes de dormir, suspirou, sonhadora, e sentiu orgulho de si mesma. A madrugada rompia no céu estrelado quando ela adormeceu com um sorriso no rosto.
(*) Radialista e jornalista, trabalhou como produtora, repórter e redatora nas Rádios Fm O DIA, Tropical e Rádio Globo. Foi Produtora-Executiva da Rádio Tupi. Lecionou Telemarketing, atendimento ao público e comportamento do Operador , mas sua paixão é escrever, notadamente poesias e contos.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Sina, por Marco Albertim
Sina, por Marco Albertim
Marco Albertim (*)
Nasceu curumi miúdo, o negrinho. A negra Maria Rita mandara abrir as janelas, por causa do calor, para se distrair da dor do parto. João Grosso, o marido, chamara o arruado para a roda de coco. Sua mulher dissera: “Quanto mais gente, melhor... Assim eu não me lembro da dor.” Na casa de alvenaria não coube tanta gente. No terraço da frente, a vizinhança olhava a roda de homens e mulheres na sala, com João Grosso no meio. De fora do círculo, espremendo-se entre as paredes e a roda, o pouco de gente que conseguira entrar.
- Vamos umbigar, meu povo!
O grito de João Grosso, mais alto que o bulício, precipitou-se para o telhado sem forro, escapando entre as brechas, ganhando a rua.
No último quarto da casa, com janela para os fundos, a parteira munira-se de toalha, uma bacia com água morna, duas ajudantes. A negra Maria Rita, nua, nenhum trapo sobre os peitos suados. As negras se acercando, à espreita do curumi.
- Arreda! Arreda! – o calor queimava as entranhas da negra.
O menino pôs a cabeça para fora. A parteira orgulhou-se da experiência. O menino já tinha a metade do corpo fora do ventre. Ninguém dava conta a João Grosso, do progresso do parto. O negro, com a intuição provida nos olhos das mulheres em pé no corredor, gritou para os confins:
- Vamos umbigar, meu povo! – A reverência ao recém-nascido, colérica, rompeu o telhado.
A parteira segurou o curumi, fê-lo chorar. Quando o aproximou do peito da mãe, a negra distinguiu algum movimento nos pés do filho. Maria Rita confundiu com a marcação das três pisadas fortes da roda de coco.
Por ordem e costume de João Grosso, a cantoria durou até as cinco da manhã. Maria Rita dormiu com o filho entre o braço e o peito. O marido estirou-se na espreguiçadeira, ao lado da cama; não quis meter a mão na boa ordem da cama. Ao meio-dia, o menino mamou no peito da mãe. João Grosso tomou banho, almoçou, juntou inhames e batatas no caçoá sobre o lombo do cavalo; foi para a feira, dispôs tudo sob a barraca de madeira, coberta de lona. Recomeçou a rotina do pouco comércio.
Um mês e pouco depois, Maria Rita quebrou o resguardo puxando um balde com água do fundo do poço. Foi rezada pelo velho Fulô. O curandeiro disse que ficaria boa, mas não poderia ter mais filhos. Ela conformou-se, dizendo que não queria ser emprenhada outra vez.
O curumi foi batizado sem a presença de padre. Chamaram-lhe Sebastião. O nome espalhou-se fácil, porque a primeira sílaba perdeu a função na rotina insossa do arruado. O notário se recusou a registrar Bastião. O negrinho, de fralda, coberto com um timão de algodão fino, olhou desconfiado para ele; no regaço da mãe, enfiou a cabeça sob o peito dela. Saiu de lá firmado Sebastião. Foi recebido no arruado com o nome quase cotó, porque houve quem o chamasse Tião.
Cresceu ouvindo batuques, ganzás do coco de sala. Insistia com o pai para fazer a roda do lado de fora, porquanto os gritos das mulheres se soltariam no vácuo do arruado. João Grosso, herdeiro do coco em recinto fechado, dizia que as palmas, o sapateado no cimento da sala, tinham mais sonoridade; batuques e gritos se soltavam pelas brechas das telhas.
- Quando você virar sambador, leve o coco pra beira do rio. Mas não contrarie a vontade do povo. É assim que o costume se mantém.
Com doze anos, Bastião tinha o gosto pelo verso, a estrofe na língua. Nenhum outro ritmo fantasiou-lhe o juízo.
Com dezoito anos, viu o pai subir num coqueiro sem o uso das peias. O velho se valera da experiência, muitos o invejavam. Bastião confortou-se na inveja dos outros, nada dissera ao pai. João Grosso, lá em cima, foi surpreendido por um camaleão.O bicho, do lado de dentro do tronco da palha, tinha o focinho para fora, o rabo solto no outro lado. Com o rabo livre, chicoteou o rosto do negro. João Grosso sentiu o queimor, coçou o rosto com as duas mãos, perdeu o equilíbrio, despencou.
Conservou no rosto o esgar da agonia. O que mais chocou o filho, os amigos, foi o impacto do corpo no chão de barro duro. O baque confundiu-se com o tropel simultâneo do coração de cada um. Bastião chamou-o. Os amigos gritaram.
- Ninguém escapa daquela altura! – disseram.
Bastião acompanhou o enterro segurando o braço da mãe. Não choravam; deram conta da dor com rostos duros, frios. Enquanto o caixão descia à cova funda, repararam no filho o pescoço grosso, tão duro quanto a face. Daí em diante, chamaram-lhe Sebastião Grosso, na ausência, por reverência; e Bastião Grosso, na sua frente, no trato amistoso.
O comércio de inhames, batatas, tomou-lhe todo o tempo durante as semanas. No fim de cada mês, inda que não crendo ser capaz de assumir o lugar do pai no improviso das sambadas, chefiou as rodas de coco. Ao fim de um ano, creu-se com a alma fincada no costume dos negros bantos. Casou-se com 25 anos com a negra Cenira, moradora do Barro Vermelho, ceramista de divindades de umbanda. Veio morar com ele, com a sogra; deu-se bem com Maria Rita. As duas não rivalizavam no culto dos dotes do filho e marido.
Cenira, à vontade, trouxe uma imagem de barro do orixá Ogum. Conforme explicou, seu protetor no ofício de moldar no barro. Instalou-a na sala, num canto da parede, ornada com fitas azuis e verdes. No ombro do orixá, pôs uma espada cor de ouro. De uma ponta a outra, em cima, amarradas aos caibros dos telhados, dispôs fitas azuis, a cor preferida da divindade. A sala, tinha-se a impressão, acolheria uma multidão em festa.
Bastião dera palpites para compor a decoração. Maria Rita, com os olhos cansados, assuntou com folguedos de São João; mas quando se certificou de que se tratava de um altar para celebrar santos da umbanda, calou-se; melhor dizendo, juntou a experiência da idade, grunhiu sem se queixar. Também ela fora, um dia, mãe-de-santo; nunca assuntara com o filho sobre como se fiara com divindades, oferendas.
Em noites de celebração, Bastião se recolhia ao aposento; por fastio, indiferença, nenhuma censura ao atributo da mulher. Maria Rita sentada num banco de madeira trazido da cozinha, acendia o cachimbo que estropiara seus dentes; espiando com pose serena, sem mostrar-se amistosa nem hostil.
- Durma profundamente – dizia Cenira ao marido. Se Bastião ficasse com os sentidos nos transes, interromperia a incorporação dos santos.
Bastião no comércio, Cenira nas molduras; cada um adorando, a seu modo, o que julgavam ser o donativo sem registro no cartório. O casamento seguiu sem tropelia. A velha Maria Rita, assuntando com o cachimbo, deixou escapar um zumbido que o filho ouviu:
- Como foi isso?! – quis saber Bastião.
Ele cruzara a porta da cozinha para os fundos, rumo ao banheiro. A mãe, sentada no banco do lado de fora, segurara no cachimbo para dizer:
- Quem reza pouco, tem alma, tem paciência. Quem reza muito, tem medo, tem blasfêmia.
- A senhora nunca disse isso. Agora tira o cachimbo da boca para pregar susto. O que a senhora tá querendo dizer?
Não era de falar, Maria Rita; mas despregou-se de seu canto, confessou com perfeição de modo os urdumes do pensamento:
- A tua mulher pula feito uma cabra do mato, entorta a boca, grita por santo que nem os santos conhecem. Cuida que ela tem na alma um diabrete...
- Cenira não está prenha, mãe. Quando emprenhar, peço pra ela parar com o encosto.
Se o filho a tivesse provocado, teria dito sem expor-se, com precisão, que fora mãe-de-santo antes do casamento. Numa noite, incorporando o orixá, um homem simulou um transe para aproximar-se dela. Aproximou-se com solavancos nos ombros, nos braços, para roçar-se em Maria Rita. Tudo seria visto, mas legitimado pelo respeito à ferocidade de cada divindade. João Grosso nunca a censurara; às vezes ficava conversando do lado de fora; outras, juntava-se ao povo crente do lado de dentro. Percebeu, ele, os propósitos do falso médium. Sem nada dizer, puxou-o pela camisa, empurrou-o para fora até a rua. O estranho recuperou o prumo no primeiro empuxão. Não reagira de pronto, para fazer uso do último simulacro de transe. João Grosso enfureceu-se, empurrou-o com mais violência. Derribado na frente de todos, o homem tirou da cintura, do lado de trás da calça, uma faca quicé. João tomou-a, furou-lhe a barriga para matá-lo. Toda a lâmina da faca entrou, mas não cortou nenhum órgão dentro; passou rente ao fígado, espirrando sangue depois do próprio João retirá-la. O homem empapou-se de sangue, não morreu. João Grosso foi levado por dois soldados, sem resistência, para a cadeia. Ao chefe de polícia, não omitiu o propósito de matar o homem que se fizera de médium para se aproveitar da moça que seria sua mulher. O chefe de polícia acreditou, deixou-o preso por um mês; depois soltou-o sem abrir inquérito.
Bastião emprenhou Cenira na madrugada de uma segunda-feira, depois da celebração. Quando ela entrou no quarto, sem tirar o suor do rosto, do pescoço e por certo do ventre rijo, a sogra mirou-a sem tirar o cachimbo da boca. Maria Rita ocultava-se no cheiro do fumo, nos anéis de fumaça em volta do rosto. “Vai emprenhar com encosto e tudo”, previu a velha.
Um mês depois, o mênstruo não veio. Ela disse ao marido. À noite pulou feito um bode, agradecendo a Ogum, que a instigara para o sêmen no período fértil.
- Quando a barriga inchar – advertiu-a o marido -, você vai interromper a macumba. O menino que tá na sua barriga não sabe o que é xangô. Ele só pode escolher depois de crescido, adulto.
Cenira não disse sim nem não, sorriu submissa, com algum deboche entre os dentes. A barriga cresceu, dando conta de um curumi inquieto. Ela suspendeu as celebrações. Como não renunciara ao desassossego das ancas, seguiu Bastião nas toadas do coco. Sentava-se, mexendo com a cabeça, os ombros, as pernas. Não perdeu a impudicícia do andar; sem malícia, mas não perdeu. Alisava a barriga com gosto, apreciando a própria saúde, a do filho que, por certo, nasceria mirrado; mas seria troncudo como o pai.
Atraída pelo convite às umbigadas, entrou na roda do coco; segurava na mão de um homem ou de uma mulher, para fechar o círculo. À ordem de umbigar, soltava-se, dando três pisadas fortes para um lado e para o outro. Bastião tinha os sentidos nos versos e na mulher. Preocupava-se pouco, porque o ruído do ganzá não acudia os orixás; mas por estar seguido de um batuque, picava-o a suspeita de que Cenira pudesse confundir a trilha dos ritmos.
Ela chamou a atenção por mostrar-se prenha, barriga saliente, sem perder o porte, a graça do corpo. O vestido de algodão, fino, transparente, dando conta da calcinha rodeando a cintura larga; dorso de uma montaria de raça. Cenira tinha consciência dos dotes, era dócil, folgazona, colérica. A cólera não surgia com facilidade. Fitando-a nos olhos, distinguia-se acolhimento e hostilidade; conforme o trato, ela abraçava feliz ou... do contrário, às cegas, com raiva. Sebastião Grosso tinha razões para confiar na mulher.
Maria Rita, mais setenta anos, prostrada no banco de madeira, sem dar sinais de cansaço. Puxava ela mesma a caneca do poço para a água de seu banho; não queria ajuda, inda que fosse da nora. Falando só, deixando escapar a fumaça entre o cuspe nos beiços, não se admitia caduca. Não dava trabalho a Cenira, curtira-se na lida da casa enquanto o marido cuidava da roça. Vendo a nora enchendo a tina de madeira, no banheiro, para o banho de Bastião, não via razões para se entregar com desvario à macumba.
- Vote!... – grunhia.
A barriga de Cenira cresceu sem umbigadas na roda de coco; umbigava, inda que no último mês da gravidez, na cama com o marido. Ele coitava sem dó, como se fosse emprenhá-la duas vezes num só coito. Ao contrário de outras mulheres, não se sentia carente ou desprotegida. Por não ter esmorecido, ter puxado muita água da cacimba, teve um parto ligeiro, com agonia mas ligeiro. Fez força, espremeu os olhos. A criança nasceu, ela soprou-se aliviada. Quando o menino chorou, ela chorou feliz, dando-lhe o bico duro do peito.
Bastião soube na feira. Fechou o negócio, foi para casa espiar o primeiro curumi de sua lavra. À noite, a pedido da mulher, fez uma sambada com versos dando boas vindas ao filho. Maria Rita, que pouco sorria, mostrou os cacos de dentes para o primeiro neto. Lembrou-se do marido, não conseguiu chorar, mas curtiu-se na saudade de não tê-lo ali para apreciar o recém-nascido.
Com a lua cheia, os coqueiros balançando, a percussão da dança zunindo nos ouvidos, Bastião sentiu saudades do pai. Olhou em volta, gritou para Cenira ouvir, o vento levar para longe:
- Vamos umbigar, meu povo!
Cenira levantou-se da cama antes da hora, e não quebrou o resguardo. Um mês depois, estava na beira da cacimba puxando água para dar banho no filho. A do marido, ele mesmo a puxava de volta da feira.
- Já sei me cuidar, Cenira. O menino é que não sabe.
- O menino não! Ele tem nome...
- Qual vai ser o nome dele?
- Sebastião. O nome do pai.
- Vão lhe chamar Sebastião Grosso!...
- Não vai ser defeito. O pai se sente defeituoso por isso? Sebastião Grosso é nome de gente.
Quando o menino completou um ano, ela quis comemorar de seu jeito. Organizou um ritual com pompa, e estridência de tambores. A velha Maria Rita, de seu canto, grunhiu:
- Vote!
A festa se deu do lado de fora, para não acordar o filho.
Um homem que há muito não se via, apareceu sem se mostrar de vez; ficou rondando cada rosto, e não viu ninguém que o reconhecesse. Não estava tão velho, embora com estrias nos cantos da boca, dos olhos. A cantoria começou. A divindade foi chamada. Ele foi à venda mais próxima; de uma talagada, bebeu meio copo de cachaça. Curtiu-se de energia, de força; fez isso três vezes. Os olhos incharam, espremendo a vermelhidão; olhou para Cenira, perturbou-se com a sensualidade dos quadris da negra.
À meia-noite os tambores ficaram mudos. Suados, homens e mulheres foram para o terraço da casa. Cenira, Maria Rita e duas mulheres da vizinhança tinham cozinhado buchada de bode. Serviram bebida a quem pedisse. Bastião bebeu; o estranho também, sentindo-se quase familiar com a casa.
O menino não acordou. Cenira, mesmo se entregando à divindade, não conseguira incorporar nenhuma; tinha os sentidos nos batuques, na criança deitada em sua cama. Feliz, a mãe, com as velas acesas, as oferendas nos tachos de barro.
Com o recomeço do rito, a barriga cheia lhes tirara a energia para dar cobro às demandas dos santos. Madrugada alta, o estranho creu-se portador de uma guia; os meneios de Cenira puseram fim ao último resíduo de dúvida. Deixou-se incorporar por seus próprios instintos, pôs-se a sacolejar braços, ombros. Cenira, que tivera um transe breve, recobrou a memória, sentiu-se cansada. Sentou-se, enxugou o rosto na tira de pano azul sobre os ombros. Os tambores se calaram, a percussão foi recolhida. O estranho, contrariado, contrafeito, refez-se; sacudiu os ombros como para tirar de si o encosto, e saiu.
Cansados, com o estômago cheio, Bastião e Cenira não coitaram; faltou-lhes energia.
Maria Rita sonhou com o marido chamando o povo do arruado para umbigar.
O estranho, em casa, dormiu sem restabelecer o equilíbrio dos sentidos.
Bastião, na semana seguinte, juntou a roda de coco para sua homenagem ao primeiro ano de vida do filho. A mulher aplaudiu-o, apertou o filho no regaço.
O estranho apareceu, juntou-se aos homens, riu com eles. Entornou o copo de cachaça três vezes, creu-se mais varão que os outros.
Bastião gritou o primeiro verso:
Tem três coisas na vida
Que o homem não deve fazer
Comprar terra em questão
Fazer negócio sem ver
Casar com mulher falada
Vai ser corno até morrer
O estranho aprovou, crendo-se tão honrado quanto o fado que inspirara o verso. Entrou na roda, apreciando com olhos dissimulados as ancas de Cenira. Ficou do lado dela, urdindo umbigar-lhe com modos inocentes; umbigou-a. Ela sentiu; nem quando estava prenha alguém se aproximara tanto de sua barriga. Olhou para ele desconfiada, distinguiu o cinismo; votou-lhe, dali em diante, um ódio visceral. Bastião vira tudo, espreitando a reação da mulher; muniu-se do mesmo ódio nos olhos de Cenira. Aproximou-se do estranho, empurrou-o para fora da roda. Bêbado, o homem cambaleou, caiu; puxou do bolso de trás a quicé. Bastião tomou-a. A camisa do estranho abriu-se. Bastião viu uma cicatriz acima do cinturão; no mesmo local, enfiou a quicé.
A velha Maria Rita viu...
(*) Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.
Marco Albertim (*)
Nasceu curumi miúdo, o negrinho. A negra Maria Rita mandara abrir as janelas, por causa do calor, para se distrair da dor do parto. João Grosso, o marido, chamara o arruado para a roda de coco. Sua mulher dissera: “Quanto mais gente, melhor... Assim eu não me lembro da dor.” Na casa de alvenaria não coube tanta gente. No terraço da frente, a vizinhança olhava a roda de homens e mulheres na sala, com João Grosso no meio. De fora do círculo, espremendo-se entre as paredes e a roda, o pouco de gente que conseguira entrar.
- Vamos umbigar, meu povo!
O grito de João Grosso, mais alto que o bulício, precipitou-se para o telhado sem forro, escapando entre as brechas, ganhando a rua.
No último quarto da casa, com janela para os fundos, a parteira munira-se de toalha, uma bacia com água morna, duas ajudantes. A negra Maria Rita, nua, nenhum trapo sobre os peitos suados. As negras se acercando, à espreita do curumi.
- Arreda! Arreda! – o calor queimava as entranhas da negra.
O menino pôs a cabeça para fora. A parteira orgulhou-se da experiência. O menino já tinha a metade do corpo fora do ventre. Ninguém dava conta a João Grosso, do progresso do parto. O negro, com a intuição provida nos olhos das mulheres em pé no corredor, gritou para os confins:
- Vamos umbigar, meu povo! – A reverência ao recém-nascido, colérica, rompeu o telhado.
A parteira segurou o curumi, fê-lo chorar. Quando o aproximou do peito da mãe, a negra distinguiu algum movimento nos pés do filho. Maria Rita confundiu com a marcação das três pisadas fortes da roda de coco.
Por ordem e costume de João Grosso, a cantoria durou até as cinco da manhã. Maria Rita dormiu com o filho entre o braço e o peito. O marido estirou-se na espreguiçadeira, ao lado da cama; não quis meter a mão na boa ordem da cama. Ao meio-dia, o menino mamou no peito da mãe. João Grosso tomou banho, almoçou, juntou inhames e batatas no caçoá sobre o lombo do cavalo; foi para a feira, dispôs tudo sob a barraca de madeira, coberta de lona. Recomeçou a rotina do pouco comércio.
Um mês e pouco depois, Maria Rita quebrou o resguardo puxando um balde com água do fundo do poço. Foi rezada pelo velho Fulô. O curandeiro disse que ficaria boa, mas não poderia ter mais filhos. Ela conformou-se, dizendo que não queria ser emprenhada outra vez.
O curumi foi batizado sem a presença de padre. Chamaram-lhe Sebastião. O nome espalhou-se fácil, porque a primeira sílaba perdeu a função na rotina insossa do arruado. O notário se recusou a registrar Bastião. O negrinho, de fralda, coberto com um timão de algodão fino, olhou desconfiado para ele; no regaço da mãe, enfiou a cabeça sob o peito dela. Saiu de lá firmado Sebastião. Foi recebido no arruado com o nome quase cotó, porque houve quem o chamasse Tião.
Cresceu ouvindo batuques, ganzás do coco de sala. Insistia com o pai para fazer a roda do lado de fora, porquanto os gritos das mulheres se soltariam no vácuo do arruado. João Grosso, herdeiro do coco em recinto fechado, dizia que as palmas, o sapateado no cimento da sala, tinham mais sonoridade; batuques e gritos se soltavam pelas brechas das telhas.
- Quando você virar sambador, leve o coco pra beira do rio. Mas não contrarie a vontade do povo. É assim que o costume se mantém.
Com doze anos, Bastião tinha o gosto pelo verso, a estrofe na língua. Nenhum outro ritmo fantasiou-lhe o juízo.
Com dezoito anos, viu o pai subir num coqueiro sem o uso das peias. O velho se valera da experiência, muitos o invejavam. Bastião confortou-se na inveja dos outros, nada dissera ao pai. João Grosso, lá em cima, foi surpreendido por um camaleão.O bicho, do lado de dentro do tronco da palha, tinha o focinho para fora, o rabo solto no outro lado. Com o rabo livre, chicoteou o rosto do negro. João Grosso sentiu o queimor, coçou o rosto com as duas mãos, perdeu o equilíbrio, despencou.
Conservou no rosto o esgar da agonia. O que mais chocou o filho, os amigos, foi o impacto do corpo no chão de barro duro. O baque confundiu-se com o tropel simultâneo do coração de cada um. Bastião chamou-o. Os amigos gritaram.
- Ninguém escapa daquela altura! – disseram.
Bastião acompanhou o enterro segurando o braço da mãe. Não choravam; deram conta da dor com rostos duros, frios. Enquanto o caixão descia à cova funda, repararam no filho o pescoço grosso, tão duro quanto a face. Daí em diante, chamaram-lhe Sebastião Grosso, na ausência, por reverência; e Bastião Grosso, na sua frente, no trato amistoso.
O comércio de inhames, batatas, tomou-lhe todo o tempo durante as semanas. No fim de cada mês, inda que não crendo ser capaz de assumir o lugar do pai no improviso das sambadas, chefiou as rodas de coco. Ao fim de um ano, creu-se com a alma fincada no costume dos negros bantos. Casou-se com 25 anos com a negra Cenira, moradora do Barro Vermelho, ceramista de divindades de umbanda. Veio morar com ele, com a sogra; deu-se bem com Maria Rita. As duas não rivalizavam no culto dos dotes do filho e marido.
Cenira, à vontade, trouxe uma imagem de barro do orixá Ogum. Conforme explicou, seu protetor no ofício de moldar no barro. Instalou-a na sala, num canto da parede, ornada com fitas azuis e verdes. No ombro do orixá, pôs uma espada cor de ouro. De uma ponta a outra, em cima, amarradas aos caibros dos telhados, dispôs fitas azuis, a cor preferida da divindade. A sala, tinha-se a impressão, acolheria uma multidão em festa.
Bastião dera palpites para compor a decoração. Maria Rita, com os olhos cansados, assuntou com folguedos de São João; mas quando se certificou de que se tratava de um altar para celebrar santos da umbanda, calou-se; melhor dizendo, juntou a experiência da idade, grunhiu sem se queixar. Também ela fora, um dia, mãe-de-santo; nunca assuntara com o filho sobre como se fiara com divindades, oferendas.
Em noites de celebração, Bastião se recolhia ao aposento; por fastio, indiferença, nenhuma censura ao atributo da mulher. Maria Rita sentada num banco de madeira trazido da cozinha, acendia o cachimbo que estropiara seus dentes; espiando com pose serena, sem mostrar-se amistosa nem hostil.
- Durma profundamente – dizia Cenira ao marido. Se Bastião ficasse com os sentidos nos transes, interromperia a incorporação dos santos.
Bastião no comércio, Cenira nas molduras; cada um adorando, a seu modo, o que julgavam ser o donativo sem registro no cartório. O casamento seguiu sem tropelia. A velha Maria Rita, assuntando com o cachimbo, deixou escapar um zumbido que o filho ouviu:
- Como foi isso?! – quis saber Bastião.
Ele cruzara a porta da cozinha para os fundos, rumo ao banheiro. A mãe, sentada no banco do lado de fora, segurara no cachimbo para dizer:
- Quem reza pouco, tem alma, tem paciência. Quem reza muito, tem medo, tem blasfêmia.
- A senhora nunca disse isso. Agora tira o cachimbo da boca para pregar susto. O que a senhora tá querendo dizer?
Não era de falar, Maria Rita; mas despregou-se de seu canto, confessou com perfeição de modo os urdumes do pensamento:
- A tua mulher pula feito uma cabra do mato, entorta a boca, grita por santo que nem os santos conhecem. Cuida que ela tem na alma um diabrete...
- Cenira não está prenha, mãe. Quando emprenhar, peço pra ela parar com o encosto.
Se o filho a tivesse provocado, teria dito sem expor-se, com precisão, que fora mãe-de-santo antes do casamento. Numa noite, incorporando o orixá, um homem simulou um transe para aproximar-se dela. Aproximou-se com solavancos nos ombros, nos braços, para roçar-se em Maria Rita. Tudo seria visto, mas legitimado pelo respeito à ferocidade de cada divindade. João Grosso nunca a censurara; às vezes ficava conversando do lado de fora; outras, juntava-se ao povo crente do lado de dentro. Percebeu, ele, os propósitos do falso médium. Sem nada dizer, puxou-o pela camisa, empurrou-o para fora até a rua. O estranho recuperou o prumo no primeiro empuxão. Não reagira de pronto, para fazer uso do último simulacro de transe. João Grosso enfureceu-se, empurrou-o com mais violência. Derribado na frente de todos, o homem tirou da cintura, do lado de trás da calça, uma faca quicé. João tomou-a, furou-lhe a barriga para matá-lo. Toda a lâmina da faca entrou, mas não cortou nenhum órgão dentro; passou rente ao fígado, espirrando sangue depois do próprio João retirá-la. O homem empapou-se de sangue, não morreu. João Grosso foi levado por dois soldados, sem resistência, para a cadeia. Ao chefe de polícia, não omitiu o propósito de matar o homem que se fizera de médium para se aproveitar da moça que seria sua mulher. O chefe de polícia acreditou, deixou-o preso por um mês; depois soltou-o sem abrir inquérito.
Bastião emprenhou Cenira na madrugada de uma segunda-feira, depois da celebração. Quando ela entrou no quarto, sem tirar o suor do rosto, do pescoço e por certo do ventre rijo, a sogra mirou-a sem tirar o cachimbo da boca. Maria Rita ocultava-se no cheiro do fumo, nos anéis de fumaça em volta do rosto. “Vai emprenhar com encosto e tudo”, previu a velha.
Um mês depois, o mênstruo não veio. Ela disse ao marido. À noite pulou feito um bode, agradecendo a Ogum, que a instigara para o sêmen no período fértil.
- Quando a barriga inchar – advertiu-a o marido -, você vai interromper a macumba. O menino que tá na sua barriga não sabe o que é xangô. Ele só pode escolher depois de crescido, adulto.
Cenira não disse sim nem não, sorriu submissa, com algum deboche entre os dentes. A barriga cresceu, dando conta de um curumi inquieto. Ela suspendeu as celebrações. Como não renunciara ao desassossego das ancas, seguiu Bastião nas toadas do coco. Sentava-se, mexendo com a cabeça, os ombros, as pernas. Não perdeu a impudicícia do andar; sem malícia, mas não perdeu. Alisava a barriga com gosto, apreciando a própria saúde, a do filho que, por certo, nasceria mirrado; mas seria troncudo como o pai.
Atraída pelo convite às umbigadas, entrou na roda do coco; segurava na mão de um homem ou de uma mulher, para fechar o círculo. À ordem de umbigar, soltava-se, dando três pisadas fortes para um lado e para o outro. Bastião tinha os sentidos nos versos e na mulher. Preocupava-se pouco, porque o ruído do ganzá não acudia os orixás; mas por estar seguido de um batuque, picava-o a suspeita de que Cenira pudesse confundir a trilha dos ritmos.
Ela chamou a atenção por mostrar-se prenha, barriga saliente, sem perder o porte, a graça do corpo. O vestido de algodão, fino, transparente, dando conta da calcinha rodeando a cintura larga; dorso de uma montaria de raça. Cenira tinha consciência dos dotes, era dócil, folgazona, colérica. A cólera não surgia com facilidade. Fitando-a nos olhos, distinguia-se acolhimento e hostilidade; conforme o trato, ela abraçava feliz ou... do contrário, às cegas, com raiva. Sebastião Grosso tinha razões para confiar na mulher.
Maria Rita, mais setenta anos, prostrada no banco de madeira, sem dar sinais de cansaço. Puxava ela mesma a caneca do poço para a água de seu banho; não queria ajuda, inda que fosse da nora. Falando só, deixando escapar a fumaça entre o cuspe nos beiços, não se admitia caduca. Não dava trabalho a Cenira, curtira-se na lida da casa enquanto o marido cuidava da roça. Vendo a nora enchendo a tina de madeira, no banheiro, para o banho de Bastião, não via razões para se entregar com desvario à macumba.
- Vote!... – grunhia.
A barriga de Cenira cresceu sem umbigadas na roda de coco; umbigava, inda que no último mês da gravidez, na cama com o marido. Ele coitava sem dó, como se fosse emprenhá-la duas vezes num só coito. Ao contrário de outras mulheres, não se sentia carente ou desprotegida. Por não ter esmorecido, ter puxado muita água da cacimba, teve um parto ligeiro, com agonia mas ligeiro. Fez força, espremeu os olhos. A criança nasceu, ela soprou-se aliviada. Quando o menino chorou, ela chorou feliz, dando-lhe o bico duro do peito.
Bastião soube na feira. Fechou o negócio, foi para casa espiar o primeiro curumi de sua lavra. À noite, a pedido da mulher, fez uma sambada com versos dando boas vindas ao filho. Maria Rita, que pouco sorria, mostrou os cacos de dentes para o primeiro neto. Lembrou-se do marido, não conseguiu chorar, mas curtiu-se na saudade de não tê-lo ali para apreciar o recém-nascido.
Com a lua cheia, os coqueiros balançando, a percussão da dança zunindo nos ouvidos, Bastião sentiu saudades do pai. Olhou em volta, gritou para Cenira ouvir, o vento levar para longe:
- Vamos umbigar, meu povo!
Cenira levantou-se da cama antes da hora, e não quebrou o resguardo. Um mês depois, estava na beira da cacimba puxando água para dar banho no filho. A do marido, ele mesmo a puxava de volta da feira.
- Já sei me cuidar, Cenira. O menino é que não sabe.
- O menino não! Ele tem nome...
- Qual vai ser o nome dele?
- Sebastião. O nome do pai.
- Vão lhe chamar Sebastião Grosso!...
- Não vai ser defeito. O pai se sente defeituoso por isso? Sebastião Grosso é nome de gente.
Quando o menino completou um ano, ela quis comemorar de seu jeito. Organizou um ritual com pompa, e estridência de tambores. A velha Maria Rita, de seu canto, grunhiu:
- Vote!
A festa se deu do lado de fora, para não acordar o filho.
Um homem que há muito não se via, apareceu sem se mostrar de vez; ficou rondando cada rosto, e não viu ninguém que o reconhecesse. Não estava tão velho, embora com estrias nos cantos da boca, dos olhos. A cantoria começou. A divindade foi chamada. Ele foi à venda mais próxima; de uma talagada, bebeu meio copo de cachaça. Curtiu-se de energia, de força; fez isso três vezes. Os olhos incharam, espremendo a vermelhidão; olhou para Cenira, perturbou-se com a sensualidade dos quadris da negra.
À meia-noite os tambores ficaram mudos. Suados, homens e mulheres foram para o terraço da casa. Cenira, Maria Rita e duas mulheres da vizinhança tinham cozinhado buchada de bode. Serviram bebida a quem pedisse. Bastião bebeu; o estranho também, sentindo-se quase familiar com a casa.
O menino não acordou. Cenira, mesmo se entregando à divindade, não conseguira incorporar nenhuma; tinha os sentidos nos batuques, na criança deitada em sua cama. Feliz, a mãe, com as velas acesas, as oferendas nos tachos de barro.
Com o recomeço do rito, a barriga cheia lhes tirara a energia para dar cobro às demandas dos santos. Madrugada alta, o estranho creu-se portador de uma guia; os meneios de Cenira puseram fim ao último resíduo de dúvida. Deixou-se incorporar por seus próprios instintos, pôs-se a sacolejar braços, ombros. Cenira, que tivera um transe breve, recobrou a memória, sentiu-se cansada. Sentou-se, enxugou o rosto na tira de pano azul sobre os ombros. Os tambores se calaram, a percussão foi recolhida. O estranho, contrariado, contrafeito, refez-se; sacudiu os ombros como para tirar de si o encosto, e saiu.
Cansados, com o estômago cheio, Bastião e Cenira não coitaram; faltou-lhes energia.
Maria Rita sonhou com o marido chamando o povo do arruado para umbigar.
O estranho, em casa, dormiu sem restabelecer o equilíbrio dos sentidos.
Bastião, na semana seguinte, juntou a roda de coco para sua homenagem ao primeiro ano de vida do filho. A mulher aplaudiu-o, apertou o filho no regaço.
O estranho apareceu, juntou-se aos homens, riu com eles. Entornou o copo de cachaça três vezes, creu-se mais varão que os outros.
Bastião gritou o primeiro verso:
Tem três coisas na vida
Que o homem não deve fazer
Comprar terra em questão
Fazer negócio sem ver
Casar com mulher falada
Vai ser corno até morrer
O estranho aprovou, crendo-se tão honrado quanto o fado que inspirara o verso. Entrou na roda, apreciando com olhos dissimulados as ancas de Cenira. Ficou do lado dela, urdindo umbigar-lhe com modos inocentes; umbigou-a. Ela sentiu; nem quando estava prenha alguém se aproximara tanto de sua barriga. Olhou para ele desconfiada, distinguiu o cinismo; votou-lhe, dali em diante, um ódio visceral. Bastião vira tudo, espreitando a reação da mulher; muniu-se do mesmo ódio nos olhos de Cenira. Aproximou-se do estranho, empurrou-o para fora da roda. Bêbado, o homem cambaleou, caiu; puxou do bolso de trás a quicé. Bastião tomou-a. A camisa do estranho abriu-se. Bastião viu uma cicatriz acima do cinturão; no mesmo local, enfiou a quicé.
A velha Maria Rita viu...
(*) Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem dois livros de contos e um romance.
domingo, 26 de outubro de 2008
Pais e filhos, o conflito, por Urariano Mota
Urariano Mota (*)
“Travessias singulares – Pais e Filhos” é um livro sobre o qual os grandes jornais ainda não falaram. Mais um livro no silêncio, para todas as redações, poderia ser dito. É para romper essa paz dos cemitérios que alinhavo aqui algumas linhas.
“Travessias Singulares – Pais e Filhos” é uma antologia que reúne escritores grandes, magníficos, e, dói-me dizê-lo, pequenos. De Machado de Assis a J. J. Veiga, passando por Moacyr Scliar, Carlos Heitor Cony, Antonio Torres, Wander Piroli, Silviano Santiago, Raimundo Carrero. Todos unidos pelo tema da relação entre pai e filho, de norte a sul do Brasil, do século XIX ao XXI. Essa é uma relação que interessa a todos os brasileiros, de pais que faltamos a um companheirismo, até os filhos que não guardam com os seus algum amor. Um terreno de conflito, mágoa e afeto, já se vê. Nem precisamos associar o livro a Édipo, o Rei, que matou o rival para dormir com a mãe, nem precisamos lembrar aquela turbulência de Os Irmão Karamazov. Bastaria a referência do eterno Kafka, em Carta ao Pai.
Não tínhamos no Brasil até aqui algo sequer parecido. Não por falta de conflito, ternura ou guerra nessa relação, é claro. Não por falta de escritores que aqui e ali não se furtaram a essa coisa tão íntima quanto a relação com o útero materno. Uma relação-correspondência que nem sempre chega ao destinatário, fundamental para a definição da identidade, do caráter que somos. Fundamental até na sua falta. Lembro que na entrevista com Ubirajara, o sem-teto que virou funcionário do Banco do Brasil, ele chegou a dizer que a falta do pai, que o rejeitara, lhe doía mais que a fome.
Nesse livro agora vindo à luz participei de duas pequeníssimas maneiras. Na primeira delas, quando localizei o escritor Renard Perez, que muita gente tomava como perdido, desaparecido ou morto. Aos 80 anos, no Rio de Janeiro, Renard só se comunicava com o mundo pelo telefone, que nem sempre atendia. Estava sozinho, imagino que em depressão, porque havia perdido a esposa há poucos meses. Quando lhe pedi algum contato, algum email de amigo, ele me respondeu, “eu não tenho amigos”. Localizei-o com muita felicidade, em razão da sorte e da alegria que senti na sua voz, ao me dizer que há muito não ouvia uma voz nordestina. Renard é natural de Macaíba, no Rio Grande do Norte. Para saber o valor da sua força, recomendo a leitura do seu conto, presente nessa antologia, “A morte do pai”. É um soco, uma lição e uma denúncia.
Na segunda maneira, participo do livro com o texto “A casa de meu pai”. É o relato de um certo pai, brutal, brutalizado e brutalizante, cuja máxima pedagógica era “bato num filho como quem bate num homem”. Os poucos leitores agora compreendem por que disse lá no começo que escritores pequenos também estão nessa antologia. Entre esses não se encontram Domingos Pellegrini, Aluísio de Azevedo, nem o grande e até há pouco esquecido Renard Perez.
O feliz editor é Rosel Bonfim, da Casarão do Verbo. O livro está nas boas casas do ramo. Mas se em algum lugar do Brasil ou do exterior não chegar, escrevam para o email do editor, roselbonfim@hotmail.com . Se um livro salva um escritor, do nível de Renard Perez, deve ser lido e saudado. Se uma antologia nos fala dessa relação de guerra e paz, merece a nossa estima. Para nos lembrar que um dia fomos filhos, e seria bom que não repetíssemos os pais que recebemos. Por uma questão de consciência. Deus ou a humanidade condenam.
(*) Urariano Mota é pernambucano. Escritor, jornalista, publicou o romance Os Corações Futuristas, cuja paisagem é a ditadura Médici.
“Travessias singulares – Pais e Filhos” é um livro sobre o qual os grandes jornais ainda não falaram. Mais um livro no silêncio, para todas as redações, poderia ser dito. É para romper essa paz dos cemitérios que alinhavo aqui algumas linhas.
“Travessias Singulares – Pais e Filhos” é uma antologia que reúne escritores grandes, magníficos, e, dói-me dizê-lo, pequenos. De Machado de Assis a J. J. Veiga, passando por Moacyr Scliar, Carlos Heitor Cony, Antonio Torres, Wander Piroli, Silviano Santiago, Raimundo Carrero. Todos unidos pelo tema da relação entre pai e filho, de norte a sul do Brasil, do século XIX ao XXI. Essa é uma relação que interessa a todos os brasileiros, de pais que faltamos a um companheirismo, até os filhos que não guardam com os seus algum amor. Um terreno de conflito, mágoa e afeto, já se vê. Nem precisamos associar o livro a Édipo, o Rei, que matou o rival para dormir com a mãe, nem precisamos lembrar aquela turbulência de Os Irmão Karamazov. Bastaria a referência do eterno Kafka, em Carta ao Pai.
Não tínhamos no Brasil até aqui algo sequer parecido. Não por falta de conflito, ternura ou guerra nessa relação, é claro. Não por falta de escritores que aqui e ali não se furtaram a essa coisa tão íntima quanto a relação com o útero materno. Uma relação-correspondência que nem sempre chega ao destinatário, fundamental para a definição da identidade, do caráter que somos. Fundamental até na sua falta. Lembro que na entrevista com Ubirajara, o sem-teto que virou funcionário do Banco do Brasil, ele chegou a dizer que a falta do pai, que o rejeitara, lhe doía mais que a fome.
Nesse livro agora vindo à luz participei de duas pequeníssimas maneiras. Na primeira delas, quando localizei o escritor Renard Perez, que muita gente tomava como perdido, desaparecido ou morto. Aos 80 anos, no Rio de Janeiro, Renard só se comunicava com o mundo pelo telefone, que nem sempre atendia. Estava sozinho, imagino que em depressão, porque havia perdido a esposa há poucos meses. Quando lhe pedi algum contato, algum email de amigo, ele me respondeu, “eu não tenho amigos”. Localizei-o com muita felicidade, em razão da sorte e da alegria que senti na sua voz, ao me dizer que há muito não ouvia uma voz nordestina. Renard é natural de Macaíba, no Rio Grande do Norte. Para saber o valor da sua força, recomendo a leitura do seu conto, presente nessa antologia, “A morte do pai”. É um soco, uma lição e uma denúncia.
Na segunda maneira, participo do livro com o texto “A casa de meu pai”. É o relato de um certo pai, brutal, brutalizado e brutalizante, cuja máxima pedagógica era “bato num filho como quem bate num homem”. Os poucos leitores agora compreendem por que disse lá no começo que escritores pequenos também estão nessa antologia. Entre esses não se encontram Domingos Pellegrini, Aluísio de Azevedo, nem o grande e até há pouco esquecido Renard Perez.
O feliz editor é Rosel Bonfim, da Casarão do Verbo. O livro está nas boas casas do ramo. Mas se em algum lugar do Brasil ou do exterior não chegar, escrevam para o email do editor, roselbonfim@hotmail.com . Se um livro salva um escritor, do nível de Renard Perez, deve ser lido e saudado. Se uma antologia nos fala dessa relação de guerra e paz, merece a nossa estima. Para nos lembrar que um dia fomos filhos, e seria bom que não repetíssemos os pais que recebemos. Por uma questão de consciência. Deus ou a humanidade condenam.
(*) Urariano Mota é pernambucano. Escritor, jornalista, publicou o romance Os Corações Futuristas, cuja paisagem é a ditadura Médici.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
Julgamento da consciência, por Rodrigo Ramazzini
Rodrigo Ramazzini (*)
- Decidiram por quatro votos a três...
A juíza proferia a sentença e um filme autobiográfico transcorreu nos pensamentos do réu Valdomiro. Lembrou-se como conhecera a ex-esposa, dos tempos de namoro, do nascimento do filho, das constantes brigas, do dia em que ela o abandonou, quando a viu com o namorado pela primeira vez...
-... Os jurados do tribunal do júri da Comarca...
Inevitavelmente o dia em que decidira matar a ex-esposa apareceu no seu longa-metragem. As crises de ciúmes não o deixavam mais em paz...
-... Nos autos do processo 27179...
De soslaio fitou o assassino da sua ex-mulher, recordou como o encontrou e acertou tal homicídio. O Vergílio, um viciado em drogas, que por algumas pedras de crack realizou a execução. Valdomiro concedeu todos os detalhes necessários. O crime foi cometido no crepúsculo de uma sexta-feira, no estacionamento do shopping. Vergílio fora preso em flagrante, pois um dos seguranças do local vira o delito e o interceptara.
-... Pelo crime de homicídio, o réu Valdomiro...
Virgílio dissera no julgamento que matara a mando de Valdomiro. Instruído pelo Advogado, Valdomiro negou veementemente Há casos em que não importa quem tem a razão, ou verdade, e sim, o melhor Advogado.
-... Foi considerado inocente.
O filho do Valdomiro lia a carta que narrava o julgamento do pai, prescrita por ele, lágrimas escorreram. Não se comunicavam há trinta anos, desde o julgamento, quando foi morar com a avó materna. Valdomiro depois de inocentado viveu esse tempo todo recluso em casa, no interior do estado, como um condenado em regime domiciliar. Morreu sentado no sofá. A carta foi o último descarrego de consciência, precisava explicar-se ao filho. Finalizou a carta dizendo: A liberdade é uma dádiva dos homens de consciência tranqüila...
(*) Jornalista e cronista
- Decidiram por quatro votos a três...
A juíza proferia a sentença e um filme autobiográfico transcorreu nos pensamentos do réu Valdomiro. Lembrou-se como conhecera a ex-esposa, dos tempos de namoro, do nascimento do filho, das constantes brigas, do dia em que ela o abandonou, quando a viu com o namorado pela primeira vez...
-... Os jurados do tribunal do júri da Comarca...
Inevitavelmente o dia em que decidira matar a ex-esposa apareceu no seu longa-metragem. As crises de ciúmes não o deixavam mais em paz...
-... Nos autos do processo 27179...
De soslaio fitou o assassino da sua ex-mulher, recordou como o encontrou e acertou tal homicídio. O Vergílio, um viciado em drogas, que por algumas pedras de crack realizou a execução. Valdomiro concedeu todos os detalhes necessários. O crime foi cometido no crepúsculo de uma sexta-feira, no estacionamento do shopping. Vergílio fora preso em flagrante, pois um dos seguranças do local vira o delito e o interceptara.
-... Pelo crime de homicídio, o réu Valdomiro...
Virgílio dissera no julgamento que matara a mando de Valdomiro. Instruído pelo Advogado, Valdomiro negou veementemente Há casos em que não importa quem tem a razão, ou verdade, e sim, o melhor Advogado.
-... Foi considerado inocente.
O filho do Valdomiro lia a carta que narrava o julgamento do pai, prescrita por ele, lágrimas escorreram. Não se comunicavam há trinta anos, desde o julgamento, quando foi morar com a avó materna. Valdomiro depois de inocentado viveu esse tempo todo recluso em casa, no interior do estado, como um condenado em regime domiciliar. Morreu sentado no sofá. A carta foi o último descarrego de consciência, precisava explicar-se ao filho. Finalizou a carta dizendo: A liberdade é uma dádiva dos homens de consciência tranqüila...
(*) Jornalista e cronista
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
A prova de amor, por Rodrigo Ramazzini
Rodrigo Ramazzini (*)
- Desculpa, amor! Por favor?
- Não.
- Por favor: aceita essas rosas pelos menos. Elas são o símbolo do meu amor...
- Sei.
- Estou arrependido pelo que fiz...
- Que não tivesse feito, então.
- Aceita, por favor?
- Tentando me comprar, Luiz Henrique?
- Não! Pô... Tu também complicas quando quer complicar... O que fiz nem foi tão grave assim...
- Nãããããoo! Tu não achas grave, Luiz Henrique? Eu fico imaginando: se tu olhaste para aquela vagabunda estando comigo... O que não fazes quando estás sozinho, hein?
- Ai ai ai, Vitória! Eu te disse: eu só olhei porque me chamou atenção uma mulher estar de mini-saia em um dia friozinho...
- Tu achas que sou eu boba? Então, foi o friozinho e depois as coxinhas dela, a bunda... Faça-me o favor!
- Meu Deus! O que eu posso fazer para provar o meu amor? Que gosto realmente de ti? Para ser perdoado?
- Não sei. Não sei se tem perdão...
- Mulher quando quer complicar, vou te contar uma coisa...
- O que disseste?
- Nada não... Me diz: o que tenho que fazer para provar que é de ti que eu gosto?
- E será que gostas mesmo? Será que existe amor da tua parte?
- Já sei! Uma serenata! Eu canto pra ti:
Às vezes, no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado, juntando
O antes, o agora e o depois
Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho!
- Chega Luiz Henrique! Quantas vezes vou precisar dizer que essa música me deprime?
- Ai ai ai, Vitória! Um poema, então? O Amor, do Fernando Pessoa. Lindo! Começa assim:
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer...
- Luiz Henrique, chega! A tua memória é fraca mesmo, hein? Ou tu não prestas atenção nas coisas que digo. Semana passada mesmo eu te falei que não gosto de poesia...
- Pô Vitória! Que droga mesmo! Nada serve. Não sei mais o que fazer para demonstrar que EU TE AMO!
- Sigh! ai-ai!
- O que foi? Por que esse suspiro?
- Repete, por favor?
- Repete o quê?
- A última parte “o eu te amo”.
- Vitória: eu te amo! Isso?
- Ai ai... Eu te amo! Eu te amo... Que lindo! Como é bom escutar isso. Ai amor... Fazia tempo que tu não demonstravas que me amava deste jeito...
- É?
- Ãran!
- Está bem então...
- Está perdoado, meu amor! Vem cá me dar um beijinho, vem...
(*) Jornalista e cronista
- Desculpa, amor! Por favor?
- Não.
- Por favor: aceita essas rosas pelos menos. Elas são o símbolo do meu amor...
- Sei.
- Estou arrependido pelo que fiz...
- Que não tivesse feito, então.
- Aceita, por favor?
- Tentando me comprar, Luiz Henrique?
- Não! Pô... Tu também complicas quando quer complicar... O que fiz nem foi tão grave assim...
- Nãããããoo! Tu não achas grave, Luiz Henrique? Eu fico imaginando: se tu olhaste para aquela vagabunda estando comigo... O que não fazes quando estás sozinho, hein?
- Ai ai ai, Vitória! Eu te disse: eu só olhei porque me chamou atenção uma mulher estar de mini-saia em um dia friozinho...
- Tu achas que sou eu boba? Então, foi o friozinho e depois as coxinhas dela, a bunda... Faça-me o favor!
- Meu Deus! O que eu posso fazer para provar o meu amor? Que gosto realmente de ti? Para ser perdoado?
- Não sei. Não sei se tem perdão...
- Mulher quando quer complicar, vou te contar uma coisa...
- O que disseste?
- Nada não... Me diz: o que tenho que fazer para provar que é de ti que eu gosto?
- E será que gostas mesmo? Será que existe amor da tua parte?
- Já sei! Uma serenata! Eu canto pra ti:
Às vezes, no silêncio da noite
Eu fico imaginando nós dois
Eu fico ali sonhando acordado, juntando
O antes, o agora e o depois
Por que você me deixa tão solto?
Por que você não cola em mim?
Tô me sentindo muito sozinho!
- Chega Luiz Henrique! Quantas vezes vou precisar dizer que essa música me deprime?
- Ai ai ai, Vitória! Um poema, então? O Amor, do Fernando Pessoa. Lindo! Começa assim:
O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer...
- Luiz Henrique, chega! A tua memória é fraca mesmo, hein? Ou tu não prestas atenção nas coisas que digo. Semana passada mesmo eu te falei que não gosto de poesia...
- Pô Vitória! Que droga mesmo! Nada serve. Não sei mais o que fazer para demonstrar que EU TE AMO!
- Sigh! ai-ai!
- O que foi? Por que esse suspiro?
- Repete, por favor?
- Repete o quê?
- A última parte “o eu te amo”.
- Vitória: eu te amo! Isso?
- Ai ai... Eu te amo! Eu te amo... Que lindo! Como é bom escutar isso. Ai amor... Fazia tempo que tu não demonstravas que me amava deste jeito...
- É?
- Ãran!
- Está bem então...
- Está perdoado, meu amor! Vem cá me dar um beijinho, vem...
(*) Jornalista e cronista
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